segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Sobre rabos

Segundo o jornaleco da Azenha de hoje, "O secretário estadual da Segurança Pública, José Francisco Mallmann, e o comandante-geral da Brigada Militar (BM) no Rio Grande do Sul, coronel Nilson Nobre Bueno, subiram a Serra na tarde de sábado para apressar os trabalhos do Inquérito Policial-militar (IPM) que investiga denúncias de abuso de poder, truculência e tortura contra cinco jovens na madrugada de quinta-feira, em Flores da Cunha".

ZH se refere ao episódio ocorrido na madrugada da última quinta-feira, 27, em Flores da Cunha, RS, quando um grupo de brigadianos teria invadido, em represália ao assassinato do sargento da Brigada Militar Luiz Ernesto Quadros Mazui, a residência de Valdir Garcia de Moura, o suposto homicida. Cinco jovens teriam sido torturados no local. U
m deles, adolescente, teria sido agredido com um cabo de vassoura no ânus e permanece internado no Hospital Geral de Caxias do Sul. Outro deles, Juliano de Moura, de 19 anos e filho do suposto homicida, teria sido sufocado com um saco plástico e recebido coronhadas e chutes.

Entretanto, segundo a democrática e culta Zero Hora, que apoiou o golpe militar de 64 aqui no Brasil e, por conseguinte, todos os interrogatórios mediante sistemática tortura de opositores à ditadura que se seguiram, "Comuns em regimes ditatoriais, as técnicas de tortura podem ser vistas no filme Tropa de Elite" (O grifo é meu).

La Vieja lembra ZH em primeiro lugar que, a rigor, regimes ou sistemas de governo podem ser parlamentaristas, presidencialistas ou mistos, e que ditaduras são um dos possíveis modos de se governar um desses sistemas em uma forma específica de governo, que pode ser uma república ou uma monarquia, por exemplo. Depois, convém mencionar que o referido blockbuster tupiniquim foi filmado aqui mesmo no democrático Brasil, e não sob um governo ditadorial. Assim, aquilo que ZH afirma ser comum em regimes ditadoriais é, na verdade, comum aqui mesmo na polícia militar carioca, e agora pelo visto também comum na Brigada Militar gaudéria, mui provavelmente impressionada positivamente pelo belo modo de lidar com o problema da violência urbana de seu
s pares fluminenses.

Ademais, o american way of life dos estadunidenses, modelo sócio-político apregoado e louvado por 11 em cada 10 almofadinhas com MBA liberais, só por blasfêmia poderia ser considerado uma ditadura, entretanto reiteradamente vem legitimando a técnica da tortura nos interrogatórios realizados por seu exército e por suas agências de inteligência. Que o digam os prisioneiros de Guantánamo e de Abu-Ghraib.

Ou seja, La Vieja só quis dizer à ZH que conviria olhar para o próprio democrático rabo antes de se, de modo oportunista, tentar ganhar pontos na luta pela construção do imaginário coletivo. Não é somente sob ditaduras, portanto, que a tortura é comum. Do fato dela não ser divulgada diariamente pela democrática mídia amiga não se segue que ela não seja comum mesmo sob democracias. Se ZH não fosse tão lacaia e entendesse por jornalismo investigativo algo mais do que denunciar vereadores semi-alfabetizados pelo uso indevido de diárias, talvez não precisasse se dar ao trabalho de indicar filmes medíocres a seus leitores a fim de fazê-los compreender a realidade.

(O texto acima foi ilustrado por fotos que mostram a tortura de prisioneiros da democracia estadunidense na prisão de Abu-Ghraib e que estão disponíveis aqui e aqui. Como se sabe, a tortura é comum em regimes ditatoriais).

Novo jeito de dar corridão

Esta é para terminar bem 2007 e começar melhor ainda 2008:

Então a política de segurança pública do novo jeito de dar corridão é mais ou menos a seguinte: cria-se um projeto, no caso o de policiamento ostensivo do centro de Porto Alegre supostamente a fim de se combater a venda ilegal de mercadorias contrabandeadas e pirateadas, e na hora de se conferir in loco seus resultados nos últimos 90 dias, manda-se na frente a Brigada Militar a fim de se fazer antes uma limpa no terreno, ou seja, dar um corridão em meninos de rua, em indigentes e em camelôs irregulares, tudo isso para que o secretário da Segurança Pública, José Francisco Mallmann, veja como tal projeto está dando resultados.

Pois bem. O novo jeito de governar acaba de inaugurar o novo jeito de enganar a si mesmo por intermédio do novo jeito de dar corridão, e ele funciona mais ou menos assim: (i) O secretário de Segurança Pública cria um projeto em conjunto com a Brigada Militar, (ii) ela aparentemente o põe em prática e, na hora de se conferir os resultados in loco, (iii) patrulhas da BM se antecipam à comitiva de referido secretário, paleteado pela sempre alerta mídia guasca, dando corridão em indigentes e em crianças e adolescentes. Depois, (IV) o digníssimo secretário diz coisas como: "A força-tarefa da BM e Smic limpou o centro" e (V) todos ficam felizes para sempre.

Tem carradas de razão o digníssimo secretário. O centro andava realmente imundo, repleto de indigentes negros e pobres e de crianças e adolescentes abandonados e em situação de risco, também em geral negras. Convém, então, antes de se verificar os resultados de políticas públicas supostamente voltadas ao combate à venda irregular de mercadorias contrabandeadas e pirateadas, fazer uma espécie de faxina étnica pelas ruas centrais de Porto Alegre. O sensível secretário, como se vê, ou ao menos um de seus subordinados, no caso a Brigada Militar, parece tratar a indigência e o abandono de crianças e adolescentes também como um caso de polícia.
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Já para o jornaleco da Azenha, o secretário Mallmann viveu um dia de político na última sexta-feira, 28. Em sua "
caminhada de quase uma hora pelas ruas do centro de Porto Alegre para ver o trabalho feito pela Brigada Militar nos últimos meses, o secretário cumprimentou comerciantes, tirou fotos com populares e parou num bar para tomar água mineral". E, ainda segundo a Zero Hora, "Ficou satisfeito" com o que viu, tanto que afirmou que "Estamos devolvendo o Centro ao cidadão. Vejo as calçadas limpas. Os comerciantes legalizados estão trabalhando com tranqüilidade. O Centro é outro".

Se devolver o centro de Porto Alegre ao cidadão prevê o enxotamento prévio de indigentes e de crianças e adolescentes em situação de risco, então tais indigentes e tais crianças e adolescentes não são cidadãos. O secretário Mallmann até pode não ter pensando nisso quando fez as afirmações acima, mas sua Brigada Militar deixou isso claro através de sua ação.

Evidentemente não há uma linha sequer em tal jornaleco a respeito do policiamento ostensivo profilático levado a cabo pela BM minutos antes da passagem do referido secretário pelo centro de Porto Alegre.

Bem, mas aí já seria esperar demais de 2008.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Sobre responsabilidades

Ninguém é mais pródigo em distorcer a história do que o Grupo RBS.

Está lá na coluna de hoje da socialite:


"Se o ministro da Justiça, Tarso Genro, cumprir o que prometeu ontem, o Brasil terá em 2008 uma saudável discussão sobre como conter o aumento da violência no trânsito. Tarso reconhece que é preciso mudar o Código Penal e o Código de Trânsito Brasileiro para punir com mais rigor os motoristas que abusam da velocidade, dirigem embriagados, não respeitam pedestres e colocam em risco a vida de outras pessoas.

Desde já pode-se esperar reações contrárias à proposta do ministro de tornar as penas mais rigorosas e de acabar com invenções como a obrigação de o poder público sinalizar onde estão instalados radares móveis ou pardais" (O grifo é meu).

La Vieja lembra Rosane de Oliveira que um dos maiores entusiastas da campanha pela sinalização obrigatória dos "pardais faturadores", bem como da campanha difamatória lançada contra tal estratégia de contenção de velocidade nas estradas ainda no governo Olívio Dutra (1999-2002), foi exatamente o Grupo RBS, hoje engajado em verdadeiros golpes institucionais travestidos de responsabilidade social como o recente "Violência no Trânsito - Isso Tem que Ter Fim". Empregados do referido grupo não poucas vezes entoaram loas nos diários impressos e nos canais de televisão da RBS ao oportunismo político travestido de interesse público da então oposição ao governo Olívio. E não foi senão de tal oposição a idéia de obrigar o Estado a sinalizar nas estradas a localização de pardais.

O Grupo RBS, portanto, em função de ter apoiado no passado a idéia da então oposição ao governo Olívio Dutra de sinalização obrigatória dos controladores de velocidade, em certo sentido já reagiu contrariamente à idéia de acabar com tal invenção até por ter sido um de seus inventores. Tem culpa no cartório, então.

O Grupo RBS, ao contrário do que hoje pensa, é um responsáveis indiretos pela velocidade nas estradas, e não só por veicular acriticamente o culto à potência, à velocidade e ao álcool, mas também por ter sido absolutamente irresponsável socialmente quando reverberou, há anos atrás, tal estratégia de desqualificação de políticas públicas do governo Olívio Dutra levada a cabo pela elite guasca. Reverberou tal estratégia sem nem ao menos levantar a hipótese de que uma sua conseqüência poderia ser a irresponsabilidade para com a coisa pública considerada como um todo, o bem comum. Foi irresponsável socialmente, embora atualmente se esforce para provar o contrário disso, ou seja, para transmitir a idéia de que é uma empresa socialmente responsável.

O preço que hoje milhares de famílias pagam deve ser debitado um pouco também dessa irresponsável fatura social.
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Ah, e antes que La Vieja se esqueça: Tarso Genro lembrou disso tudo quando aceitou posar segurando a camiseta da referida campanha do hoje engajado Grupo RBS?

Ganha uma camiseta autografada pela Rosane de Oliveira quem matar tal charada.

Tropa de Elite

Está no jornaleco da Azenha de hoje:

"A morte com um tiro no pescoço do sargento da Brigada Militar (BM) Luiz Ernesto Quadros Mazui, de 39 anos, na madrugada desta quinta-feira, indignou a corporação de Flores da Cunha, na serra gaúcha, mas também revoltou família e vizinhos do suspeito do homicídio, o gesseiro Valdir Garcia de Moura, 41 anos. Após o assassinato, um grupo de PMs teria invadido a residência de Moura e espancado quatro jovens. Um deles alega que foi agredido com um cabo de vassoura no ânus e outro diz ter sido torturado com um saco plástico encobrindo seu rosto" (O grifo é meu).

Trata-se da tropa de elite da Brigada Militar farrapa.

Depois ninguém entende os motivos que levaram José Paulo Bisol, o único secretário de segurança pública que o RS teve até hoje, a sugerir a desmilitarização da BM gaúcha e uma varredura na polícia civil. Quando Bisol falava em direitos humanos como lição de casa para brigadianos e policiais civis, era ridicularizado inclusive pela mídia guasca.

Se bem que cada Brigada Militar tem a mídia que merece.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

"Hipocrisia na Mídia - Isso Tem que Ter Fim"

"Não tenho ilusões de que campanhas pontuais em véspera de feriados e ações de curto prazo mudem a cabeça das pessoas".

Diza Gonzaga, presidente da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga, ao Correio do Povo de hoje.

O que faz com que um certo número de abobados de relações públicas pense que um certo número de jornalistas abobados vestindo camisetas com determinada mensagem em vésperas de feriados irá de algum modo influenciar no comportamento do motorista brasileiro, há anos diariamente bombardeado pelos rebaixados apelos do álcool e da velocidade aliada à potência? O que faz com que tais abobados pensem que haveria alguma relação imediata e quase mágica de causa e efeito entre a verbalização de suas toscas pretensões, em um dia, e o comportamento dos condutores de veículos, em outro? Como estes sujeitos conseguem pensar que tal tipo de problema está sujeito à tal tipo de planejamento de relações públicas, que no final das contas só se preocupa com a imagem pública de seus idealizadores?

Bem, só mesmo visitando faculdades de comunicação social e rodinhas de publicitários e relações públicas para se saber como tais estrategistas pensam e agem. La Vieja já adianta que é preciso ter estômago para suportar a quantidade de chavões, simplificações, reducionismos, achismos e crenças irrefletidas em discussão. De suas pranchetas saem planejamentos brilhantes como o recente "Violência no Trânsito - Isso Tem que Ter Fim", do Grupo RBS. Trata-se mais ou menos de uma espécie de alívio de consciência, algo do tipo: "ufa, ainda bem que existimos para fazer com que as pessoas se dêem conta dos problemas do trânsito. Deveriam ser eternamente gratos por nossa perspicácia. Agora vamos todos para casa esperar pelas estatísticas, pois a mensagem está dada. Fizemos nossa parte".

Os raciocínios de relações públicas e de publicitários são de uma tosquice ímpar. Mais toscos, só os jornalistas que se prestam a vestir as camisetas criadas pelo brilhantismo intelectual de seus colegas.

Nenhuma articulação com campanhas estatais permanentes de prevenção aos acidentes de trânsito ou com ONGs dedicadas à tal causa. Todos os anos o Ministério Público gaúcho pena para conseguir com que míseros releases alertando sobre o crescimento do consumo de álcool entre crianças e adolescentes sejam publicados na mídia oligárquica guasca. Patrulheiros da Polícia Rodoviária Federal (PRF) só são convocados a dar seus pareceres um dia antes e um dia depois dos feriados, na primeira vez para repetirem, em geral em 15 segundos, pois já está na hora dos comerciais de cerveja e de automóveis, duas ou três dicas de prevenção, e na segunda para divulgarem as já tragicamente esperadas estatísticas.

Segundo informa o Correio do Povo de hoje, 134 pessoas perderam a vida em acidentes de trânsito em rodovias federais brasileiras de sábado até segunda-feira, "o maior número de vítimas da data de todos os tempos, 49% superior ao mesmo período de 2006, quando ocorreram 90 mortes".

No RS foram 32 vítimas. Ainda na sexta-feira, Porto Alegre registrou o maior número de acidentes em um só dia dos últimos cinco anos: 105. A Polícia Rodoviária Federal aplicou 1,2 mil multas até segunda-feira e registrou 180 acidentes, com 7 mortos e 133 feridos.

Segundo Alessandro Castro, chefe de Comunicação Social da PRF, onze motoristas foram flagrados embriagados. "Os condutores abusam da velocidade e da imprudência", finalizou Castro.

Para o subcomandante da Brigada Militar gaúcha, coronel Paulo Roberto Mendes, "o álcool e a velocidade estão tirando a vida de muitos gaúchos".

Mas, claro que não há nenhuma relação entre o papel comercial da mídia e tais estatísticas. Os apelos publicitários em favor do consumo do álcool e em nome da velocidade e da potência nada têm a ver com o comportamento dos motoristas no trânsito. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, evidentemente. De modo algum um abobado de 18 a 29 anos que guia à 180 quilômetros por hora foi influenciado a assim proceder em função do álcool que consumiu e dos rebaixados apelos à exaltação de sua masculinidade, que fazem de seu carro a extensão da potência de seu membro viril.

Mas ainda bem que o Grupo RBS está aí para vestir a camiseta e para nos conscientizar dos riscos da mistura entre álcool e direção ofensiva. Na verdade, La Vieja não sabe o que seria de nós se não fossem as campanhas em vésperas de feriados da RBS.

Rosane de Oliveira, por exemplo, já tem o diagnóstico do problema e sua respectiva solução:
"A certeza da impunidade está por trás dos acidentes provocados por quem desrespeita o Código de Trânsito Brasileiro".

Em tempo: estranhamente, no entanto, não é esse o tema da campanha da qual ela veste a camiseta.

Não é, então, o consumo de álcool aliado à imprudência, tal como diagnosticado pelos patrulheiros rodoviários que há anos estão nas estradas, que está por trás dos acidentes que ocorrem no Brasil e no RS, mas sim a certeza da impunidade. O cara pensa mais ou menos o seguinte: "agora vou deixar para trás aquele metido à besta nem que tenha que passar de 200 km/h até porque sei que não serei punido caso seja pego", e não "agora vou fazer aquele babaca comer poeira porque estou no meu vectra".


E o jornaleco da Azenha ainda têm a cara de pau de hoje escrever coisas como "Apesar do esforço das polícias rodoviárias e de campanhas como Violência no Trânsito - Isso Tem que Ter Fim, da RBS, pelo menos 33 pessoas morreram nas estradas e nas ruas gaúchas no feriado de Natal mais sangrento sob a vigência do Código de Trânsito Brasileiro (CTB)".

Como é que pode que, sem ruborescer, o Grupo RBS situe sua campanha institucional de relações públicas que chegou ontem no mesmo patamar de esforços do Estado? Como é que pode que eles tenham tido a desarrazoada petulância de contabilizar tal campanha entre tais esforços? Mas isso não é nem mais petulância, mas sim o mais puro deboche com a dita opinião pública. Isso é infantilizar ao extremo a capacidade alheia de percepção da realidade. La Vieja se sente extremamente ofendida com tal desaforo. Será mesmo que passava pela cabeça de algum integrante do Grupo RBS que a campanha chinfrim por eles lançada às vésperas de um feriado teria algum, qualquer que fosse, efeito sobre o comportamento dos motoristas? Se sim, La Vieja não vai mais só duvidar da competência de tais profissionais, mas também de sua sanidade.

La Vieja acaba de lançar uma campanha, para a qual um de seus criativos amigos bem que poderia criar um selo: "Hipocrisia na Mídia - Isso Tem que Ter Fim".

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Crianças

Antes, mais uma da política de relações externas pacifista de George Bush:

"Cerca de 2 milhões de crianças no Iraque enfrentam ameaças devido a doenças, desnutrição, falta de escolas e violência, segundo relatório divulgado nesta sexta-feira pelo Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância e a Adolescência".


(No retrato, a morte à espreita na África mãe)




Cumpleaños

A postagem abaixo, mais uma da série "O que escrever quando as idéias andam curtas", também é do ano passado, especificamente de um ano atrás. Foi escrita poucos dias depois do presidente Lula ter afirmado que o amadurecimento político necessariamente conduz homens de direita e de esquerda ao centro, e que ele mesmo, graças à tal natural processo de amadurecimento, estava já se dirigindo à tal posição.

Publiquei tal texto por conta de meu aniversário, que por sinal é hoje, como tem acontecido há 34 anos, agora pela 35ª vez, como aliás é natural se esperar que o tempo se comporte, a menos que a Palestina nos dê nós mentais.

E com essa postagem La Vieja se despede de todos, pelo menos por uns dias. Santiago do Boqueirão será meu destino a partir de amanhã pela manhã e pelo menos até quarta-feira da semana que vem, dia 26.

Segundo o espírito do texto que abaixo segue, queria aqui saudar as chegadas do Alívio Refrescante, do Garabombo, do Marcelo Cafrune, do Moa Blog, do Tinta China, do Caldo de Tipos, do Diário da Cratera Urbana, da Toca do Jens, do Implicante e do meu conterrâneo Júlio Prates, todos eles enlaçados ao lado.

A luta, com vocês, ficou bem menos árdua e muito mais agradável e inteligente.

Saludos!
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"Hoje faço aniversário. E, como toda pessoa que se diz de esquerda em política já sabe, o aspecto mais interessante de se envelhecer hoje em dia está naquilo que acrescemos à espécie do ponto de vista de sua evolução, muito embora eu seja um pouco mais previdente do que o Excelentíssimo Senhor Presidente da República Luis Inácio Lula da Silva e creia ser temerário afirmar que de meu caso se siga algo mais do que as conseqüências de meu próprio caso.

Bem, isso é irrelevante. O caso é que já me sinto meio que social-democrata, meio que membro da juventude liberal. Até já renovei meu guarda-roupa: ternos sóbrios, óculos escuros e uma indefectível pastinha de couro são agora meus inseparáveis apetrechos. Nem cerveja em copo de requeijão eu tomo mais, tamanha minha sofistificação. Quase me sinto um Fernando Schüller, um Paulo Feijó, meus modelos de gestão pessoal já tão próximos do ápice da evolução humana como espécie como tão só um homem sensato e amadurecido politicamente poderia estar, uma vez que estão mais próximos do centro do que eu.

Aliás, este negócio de centro é bem engraçado. Muito embora quase todos, menos os idosos e os jovens de esquerda, considerem tal posição como a de equilíbrio, como o ponto de equilíbrio, como se diz na mecânica clássica, parece que um fenômeno qualquer está fazendo com que as pessoas se esqueçam de que necessariamente só há ponto de equilíbrio ao centro se massas semelhantes, ou equivalentes, estiverem dispostas sobre ambos os pratos da balança. Em antigas balanças de pesos, por exemplo, aquelas nas quais se contrabalançava uma massa x com pesos de massas variadas capazes de se equivaler à massa x em questão, caso houvesse mais massa no prato localizado no seu lado direito, necessariamente se deveria colocar mais pesos no prato localizado em seu lado esquerdo como forma de se obter massas equivalentes de ambos os lados e, por conseguinte, o referido ponto de equilíbrio ao centro. E em muitos casos, quando queremos encontrar o ponto de equilíbrio entre massas distintas dispostas em lados opostos de uma base plana qualquer, sequer é ao centro que o encontramos, e isso por razões físicas muito simples.

Bem, parece que estamos diante de um caso em que a contemporaneidade trouxe um embrutecimento intelectual antes não verificado quando se recorria ao hoje obsoleto expediente da balança com pesos.

A velha e boa balança com pesos, abandonada a sua sorte por conta de sua substituição, em um primeiro momento por balanças analógicas e, agora, pelas digitais, ironicamente em tese e na prática mais precisas, levou consigo para o inexorável limbo do passado anacrônico também uma idéia, uma percepção de mundo. Quem só conhece balanças digitais, que nem ao menos se prestam a metáforas, o que é uma perda poética considerável, embora não mais seja logrado por um bolicheiro mal-intencionado sequer em um grama, ou bem desconhece a essência e a poesia do equilíbrio ou bem nunca prestou atenção em seus mistérios enquanto brincava de gangorra com aquele seu amigo de infância gordinho, se é que ainda existem gangorras ou crianças nelas brincam, se é que crianças ainda brincam.

Bem, chega de anacronismos. Pouco importa se saber que só há ponto de equilíbrio ao centro quando massas equivalentes estão dispostas em ambos os pratos de uma balança ou que nem sempre é ao centro que tal ponto pode ser encontrado, desde que é o centro, em política, o local para o qual convergem as mais sãs e razoáveis mentes. A razão, que antes tinha uma idade, agora também tem um local privilegiado, a saber, o espectro político central. O êxtase da razão, agora, é simultaneamente se atingir sua idade e seu local privilegiado. É um clímax quase tântrico, diz-se. Delfim Neto, por exemplo, já a atingiu, assim como José Sarney, pelo menos de acordo com o juízo de nosso presidente, muito embora eu ainda acredite que José Sarney costuma utilizar dois pesos e duas medidas em suas medições. Mas que sei eu de justeza e correção, que não sou nem social-democrata e nem centrista.

Foi um privilégio, caríssimos, ter desfrutado da companhia diária de todos vocês nestes oito meses de vida de La Vieja Bruja. Não poucas vezes li em seus blogs textos tão ou mais elaborados do que os veiculados pela grande mídia tupiniquim, quando não da mídia mundial, que ao menos em tese têm obrigação moral de informar adeqüadamente em função do fato de lidarem com um nosso direito. E receberem para isso, aliás.

Agradeço pelos bons ventos que vieram com a Brisa do Sul e pela orientação segura da Biruta do Sul. Com ela, aliás, não há crise em matéria de controle de vôo. Ao Marconi Leal agradeço pelo humor inteligente e criativo, responsável pelo riso cotidiano de internautas do Brasil inteiro.
Agradeço à Margarida Inventada pela poesia e pelo encantamento e ao Codevilla pela imagem transformada em poesia. À Alma da Geral, ao Nuestrovino, ao Jean Scharlau, ao Celeuma, ao Júlio Garcia, ao Blog dos Municipários de Porto Alegre, ao Agente 65, ao Hélio Sassen Paz, ao Vozes do Sul, ao Pontodevista, ao Contrapauta, ao Contraofensiva, ao Impensado e ao Ainda a mosca azul agradeço pela sinceridade, pela coragem (com a cara e a coragem, meu caro Júlio), pela solidariedade e pelo espírito de luta, algo que ficou muito claro para mim e para a Vieja nestes seus 8 meses de vida.

Obrigado, Eduardo, pela mui digna trincheira fronteiriça onde resistem o carteiro e o poeta, armados com metáforas e sonhos prenhes de generosidade. Ao Kayser, pela sagacidade e pela riqueza da síntese de idéias mil em tão poucas palavras e em traços tão vigorosos. Ao Olho-Dínamo pelas machinações-de-ver além da aparência, muito além da aparência.
Ao RBS Mente, ao Dialógico e ao Zero Fora pelo trabalho minucioso, persistente, responsável e incansável de preservação da verdade, de desnudamento da verdade para além da versão oficial. Talvez seja tão só este o conceito de responsabilidade social que deveria preservar a RBS enquanto finge solidariedade ao se aproveitar do trabalho alheio a fim de se autopromover.

À Palestina do Espetáculo Triunfante agradeço pela lucidez, pelo vigor crítico, pela profundidade analítica e pelas belas críticas-crônicas de cinema. Ao Fabian, do O meu tempo, pelas pertinentes inquietações filosóficas.
Ao César, do Animot, tão bem descrito pela Palestina como um sujeito que veio ao mundo com um acelerador embutido em seu sistema límbico, agradeço pela brilhante inteligência e pela solidariedade intelectual. Nada fica de pé depois de sua análise, mas só os egoístas não enxergam seus generosos propósitos.

Seria pouco agradecer ao Marco, do RS Urgente, pela informação precisa, bem elaborada e atenta. Embora seus pés estejam em sua aldeia, o que lhe garante firmeza, sua mente está nas relações entre o universal e o regional. E não é tão somente esta a leitura política que faz sentido, que, aliás, constrói o sentido do mundo?
E ao Cristóvão, do Diário Gauche, agradeço pelas lições de política e de história. Quem conhece parte de sua leitura da história do RS, bem como acompanhou em seu blog sua série de discussões sobre a previdência social e sobre o conceito de publicização, por exemplo, sabe do seu compromisso quase obsessivo com a preservação da verdade.

E, finalmente, agradeço profundamente a todos aqueles que leram, comentaram ou visitaram de passagem La Vieja Bruja, independentemente do que tenham dito ou pensado sobre aquilo nela escrito. Ler ou ouvir um contraponto, por mais que ele destoe de nossas crenças, é muito melhor do que viver em uma caverna aferrado a elas.

Bueno, era isso. Uma incursão ao interior, começando por Jaguarão, passando por Santa Maria e findando em Santiago me aguarda nestes derradeiros dias de 2006. Embora os fatos e as versões não deixem de acontecer e nem saiam de seus lugares, muito provavelmente não estarei aqui para comentar os primeiros e espezinhar as últimas. Isso pouco importa, pois agora sei que independentemente de onde eu esteja, algum de vocês fará isso por nós.


Gracias. Boas festas a todos e a cada um de acordo com o que rezam suas crenças. Que a solidariedade, a humildade intelectual e o desapego à efemeridade da vaidade e à pequenez do individualismo estejam convosco em 2007 (2008, claro)".



Dedico esta despedida de 2007 ao meu falecido avó, Carlos Pery da Silva, ao meu pai, José Cândido Duarte, e a um grande amigo, pai e avô recentemente falecido, com os quais aprendi tudo aquilo que poderiam ensinar sobre antigas balanças com pesos.


Sobre missivas

Segundo a Zero Hora de hoje, "Uma carta de duas páginas e 43 linhas, assinada pela governadora Yeda Crusius e destinada à Hamburgo Energia e Participações Ltda, foi encaminhada na quarta-feira à Justiça Federal pelos defensores da empresa para fundamentar um pedido de desbloqueio de bens".

A referida empresa é uma das duas "beneficiadas por 12 empréstimos internacionais junto ao banco alemão Kreditanstalt für Wiederaufbau (KfW) feitos a partir de avais irregulares concedidos pela Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica (CGTEE), em 2005 e 2006".

Ainda segundo a ZH,
"O texto firmado por Yeda com data de 19 de julho - 23 dias depois de o caso ter se tornado público - é um aval político do Palácio Piratini, feito a pedido do próprio diretor-presidente da Hamburgo, Alan Barbosa, do ex-deputado e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) João Luiz Vargas - que toma posse hoje na presidência do órgão - e de prefeitos da Metade Sul".

A Zero Hora afirma ainda ter tentado ouvir o que Yeda Crusius (PSDB) teria a dizer sobre tal carta e sobre sua assinatura, mas a governadora preferiu não se manifestar.
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E agora, José?

- Zero Hora irá investigar a fundo o porque da governadora do Estado endereçar uma carta envolvendo um suposto aval político e o nome de uma empresa pública a prováveis negócios de uma empresa suspeita de corrupção, tal como fez quando somente o nome de petistas estava supostamente envolvido em tais negociatas?

- E I
ntegrar empresas públicas no esforço de "assegurar a aceleração dos empreendimentos" de empresas privadas envolvidas em escândalos de corrupção, supostamente "pelo bem da nossa população",
é novo jeito de governar de Yeda Crusius?

Essência e aparência, ou sobre como todos vêem o que pareces ser, mas poucos o que és realmente

La Vieja desentocou a lebre escondida sob a nova campanha institucional do Grupo RBS, o RS Urgente repercutiu e o Diário Gauche não perdoou: "Os mídias no mundo todo periodicamente fazem tais campanhas com a finalidade de aproximá-los dos seus leitores e simpatizantes. Mera questão de imagem, de aparência pública formal".

Pois bem. O aprofundamento da discussão pelo Cristóvão Feil foi extremamente oportuno para La Vieja dizer algumas coisas sobre o conceito de responsabilidade social, verdadeiro saco de gatos dentro do qual escondem seu verdadeiro caráter, na medida em que empresas podem possuí-lo e não seus proprietários e funcionários, inúmeras empresas brasileiras.

Há nas faculdades de administração, pelo menos nas melhores do ramo, uma candente discussão acerca das implicações teóricas e práticas da disciplina de Ética nos Negócios, que os almofadinhas com MBA teimam em chamar de Business Ethics.

Roberto Patrus Mundim Pena, em Responsabilidade Social da Empresa e Business Ethics, Uma Relação Necessária?*, fundamentado nos estudos de Josep Lozano, afirma que a Ética nos Negócios se subdivide em três pilares: a ética da responsabilidade, que se baseia na relação mantida pelas empresas com seus públicos interno e externo, desse modo abarcando o conceito de responsabilidade social, que vem a ser o conjunto de intervenções empresariais sem fins lucrativos na sociedade cujo suposto fim seria o bem comum, a ética afirmativa de humanidade, que tem a ver com os processos de auto-regulação com os quais as empresas elaboram e constroem seus valores, finalidades e critérios de atuação organizacionais, e a ética geradora de moral convencional, que tem a ver com a construção daquilo que dentro das empresas se chama de ethos corporativo, o que vem a ser, por sua vez, o conjunto de valores que norteiam determinada organização. Segundo Pena, a construção de tal ethos "depende da atuação das pessoas no contexto organizacional, dos exemplos da alta direção e da consistência entre os atos e os valores professados pela organização" (Os grifos são meus).

Sem articulação prática e efetiva entre os três pilares descritos acima não é possível se falar em Ética nos Negócios. Esse é um ponto central da tese de Lozano, apresentada e defendida no referido artigo por Roberto Pena. Uma empresa que não respeite os princípios grosso modo acima apresentados não é uma empresa ética.

Entretanto, continua Pena, há um esforço de determinados teóricos da administração, em sintonia com determinadas práticas empresariais, que tenta fazer com que o conceito de responsabilidade social empresarial se alargue de tal modo que abarque todo o conceito de Ética nos Negócios, o que, segundo Pena, é inadmissível em função das limitações inerentes à tal conceito, que está contido em um dos pilares da Ética nos negócios.

Conforme Pena, tal ampliação tem servido "ao marketing institucional à medida que busca associar o desenvolvimento de projetos sociais com a ética empresarial, de modo a fazer crer que a empresa não só tem sensibilidade social, mas é uma empresa ética" (Os grifos são meus).

Pena, por fim, resumindo a ópera, afirma que toda empresa ética necessariamente é uma empresa socialmente responsável, mas que nem toda empresa socialmente responsável necessariamente é uma empresa ética, pois ela pode muito bem utilizar sua política de responsabilidade social como mero instrumento de marketing institucional a fim de encobrir, por exemplo, inconsistências entre seus alardeados valores e atos, entre sua teoria e sua prática, como diz o vulgo. Determinadas empresas na prática exploram à exaustão a mão de obra de seus funcionários, mas na teoria denunciam o trabalho escravo inclusive com suas ditas campanhas institucionais. Outras, por seu turno, na teoria realizam campanhas de conscientização sobre o trânsito, mas na prática ajudam a perpetuar os mitos da potência e da velocidade. Outras, ainda, na teoria mantêm fundações supostamente preocupadas com problemas como, por exemplo, a gravidez na adolescência, mas na prática estimulam o sexo irresponsável entre crianças, adolescentes e adultos de 18 a 28 anos recém saídos, pero no mucho, da adolescência.

Toda essa cantilena, caríssimos e carísssimas, para desencavar o texto abaixo, denominado "Essência e Aparência", escrito há aproximadamente um ano e publicado ainda no boa noite pro porco.

Tal texto, que teve uma enorme repercussão à época, e quando La Vieja fala em enorme repercussão ela quer dizer algo como 2 ou 3 comentários, tematiza exatamente a contradição entre a prática comercial e o discurso socialmente engajado do Grupo RBS.

Vamos a ele, então.

Como de costume, datas e outras informações a fim de facilitar o entendimento virão entre (parênteses) em itálico azul, e enlaces que não funcionarem, não funcionam mais.

(* O referido artigo foi um dos textos utilizados por La Vieja, pelo Animot e por outros colegas do Departamento de Filosofia e da Escola de Administração da UFRGS na disciplina de Introdução à Filosofia, ministrada no primeiro semestre deste ano, no curso de graduação em Administração, modalidade a distância, dessa mesma universidade)
______________________

"Quem folheou a edição dominical de ontem (03/12/2006) da Zero Hora talvez tenha percebido na página 42 da editoria 'Geral' a pequena peça gráfica acima (aquele bonequinho trepado lá em cima).


Trata-se, aparentemente, de uma espécie de teaser sobre o Planeta Atlântida, como se sabe um evento musical patrocinado pelo grupo RBS no litoral gaúcho durante o verão. A referida peça gráfica conta com um simpático, porém nem assim tão ingênuo, gimmick, que é, inclusive, o personagem da peça em questão. Seu nome é 'Decibel Amarelo', seu hobby é 'azarar', sua idade é 'no ponto', o sexo, ou o seu sexo, é 'muito', seu sonho é 'curtir a maior festa do planeta e pegar quantas puder' e seu recado para as futuras pretendentes que serão pegas é 'meninas, façam fila'.

Também é público e notório sobre o referido evento patrocinado pelo grupo RBS o fato de que seus freqüentadores são eminentemente adolescentes. Também circulam por lá crianças acompanhadas por adolescentes, em geral filhos da nata do povo escolhido que reza sobre a santíssima trindade apartamento no Moinhos/casa na Serra para o festival de cinema de Gramado/casa em Atlântida para um veraneio glamouroso, e alguns adultos ainda não resolvidos em suas personalidades. Adolescentes, entretanto, são tão comuns por lá quanto a própria areia e música de baixa qualidade.

Olhem, eu não quero parecer moralista ou coisa do gênero. Inclusive costumo sempre repetir uma estória que ouvi certa feita quando sou obrigado a ouvir uma pessoa acima dos quarenta e cinco anos afirmar coisas tais como 'O meu tempo sim é que era bom. As músicas eram melhores, os políticos eram honestos e as pessoas eram decentes'. Costumo lhes dizer que, ouvindo coisas semelhantes, uma vez uma certa pessoa respondeu ao seu interlocutor que não eram os tempos que estavam piores, mas sim ele é que havia piorado.

Bueno, como eu dizia, não quero parecer o moralista de plantão, mas confesso que me enoja ver uma empresa de comunicação do porte e com o alcance da RBS vulgarizar de forma absurda as relações sociais entre crianças e adolescentes. Uma empresa que recebe concessões públicas e se quer agente social e que, inclusive, mantém uma fundação 'especializada em gerenciamento de projetos e no desenvolvimento social' a fim de transformar 'o presente e o futuro de crianças e adolescentes', e um portal social que 'busca facilitar a cooperação da sociedade nas iniciativas de interesse público' e que 'identifica e dá visibilidade a bons projetos sociais' absolutamente não pode, de forma alguma, transmitir ao público-alvo adolescente de um seu evento mensagens como as propaladas pela peça gráfica acima.

É inadmissível que um evento lúdico que congrega adolescentes em fase de descoberta emocional e psicológica e que mal sabem lidar com sua sexualidade se transforme em uma ode à irresponsabilidade sexual. Crianças e adolescentes em sua maioria absolutamente não têm capacidade intelectual de lidar com mensagens maliciosas de sentido duplo. A peça gráfica acima transmite ao leitor e ao público-alvo do referido evento a idéia de que o sexo é algo banal e que pode ser praticado 'muito' e livremente, sem nenhuma espécie de responsabilidade maior. Não sou eu que estou subjetivamente superinterpretando a referida peça gráfica, mas sim seu machista personagem que isso afirma abertamente. É ele, que representa todo e cada um dos adolescentes-alvo do evento, quem afirma anbigüamente que seu sexo, ou o sexo, é 'muito', num claro jogo de palavras que tem como objetivo transmitir a idéia de que o sexo deve e pode ser 'muito' praticado no referido evento. É ele quem afirma que tem como objetivo 'pegar quantas puder', transmitindo a idéia de que mulheres são como peças de carne expostas em algum açougue ou como mercadorias em um supermercado. Tal tipo de pensamento rebaixa as mulheres tanto em sua sexualidade quanto em sua personalidade, pois as pinta como seres passivos à espera do macho dominador e infalível, machismo rasteiro que degrada o gênero. E é ele quem, no final das contas, transmite seu recado nada sutil às mulheres: 'meninas, façam fila', egocentrismo também típico de machistas mal resolvidos sexualmente.

Caramba, mas o que é isso? São os tempos que estão piores ou são redatores publicitários e jornalistas que estão mais imbecis?

E o que dizer da apregoada responsabilidade social do grupo RBS? Como uma empresa que cultiva tal dupla personalidade jurídica pode querer que seus projetos de cunho social sejam levados a sério diante da ausência de limites e da agressividade de seu marketing? Como o grupo RBS pode, simultaneamente, incentivar a irresponsabilidade sexual através da vulgarização das relações sociais entre crianças e adolescentes e projetos sociais tais como o Jovens trocando informações sobre sexualidade, que tem como público-alvo jovens entre "'16 e 24 anos' e como objetivo discutir temas como 'juventude, sexualidade, planejamento familiar, métodos contraceptivos, DSTs e AIDS'? Como ser responsável socialmente sendo tão contraditório? Que espécie de compreensão sobre sexualidade, respeito às diferenças, planejamento familiar, métodos contraceptivos, DSTs e AIDS pode emergir de um evento onde a imagem do sexo é vendida como 'livre e farto' e no qual as mulheres são meros objetos decorativos à espera da luxúria de machos que 'pegam' tantas quantas possam?

Bem, já estou me alongando e o principal ainda não foi dito. Parece-me, entretanto, para finalizar, que duas coisas ficam muito claras no jogo de interesses do grupo RBS. A primeira é que o referido grupo não tem escrúpulos quando se trata de vender seu peixe; ou seja, quando está em jogo a venda de um referido produto do grupo, neste caso o evento Planeta Atlântida, os fins justificam os meios. Pouco importa se há uma contradição entre o discurso social da RBS e sua prática, desde que o referido evento lote e dê lucro. Na balança moral do grupo RBS parece não haver espaço para a coerência e nem para a reflexão acerca das conseqüências da busca pelo lucro desmedido, egoísta, inconseqüente e irresponsável. A mensagem que fica desse primeiro ponto é a de que vem mais a calhar economicamente investir em fundações e em portais sociais a fim de posteriormente captar recursos a serem investidos em programas sociais do que corretamente informar e educar, o que equivaleria a abrir mão do lucro obtido a partir de eventos irresponsavelmente divulgados.

O segundo ponto a ser destacado no jogo de interesses do grupo RBS está umbilicalmente ligado à mensagem acima. Está ligado, na verdade, a um fenômeno contemporâneo cujas raízes, no entanto, estão no começo da idade e da política modernas, mais especificamente em Maquiavel, que sem querer se transformou no primeiro relações públicas, na acepção contemporânea da palavra. Lemos em 'O Príncipe' que não é preciso se possuir qualidades tais como a integridade e a humanidade, por exemplo, mas sim somente se aparentar possuí-las, pois 'todos vêem o que tu pareces, mas poucos o que és realmente' (O Príncipe, Cap. XVIII). Ou seja, é mais importante se parecer íntegro do que se ser íntegro, uma espécie de inversão de valores entre aparência e essência.

Pois é mais ou menos isso que acontece hoje com a dita responsabilidade social do empresariado, em geral mera fachada a encobrir os escombros morais da consciência de culpa burguesa ou mesmo sua essência naturalmente exploradora e predatória. Tanto o apoio prestado por inúmeras fundações empresariais a projetos sociais através da captação de recursos quanto as propagandas sociais muitas vezes veiculadas com a assinatura de tais fundações em geral não passam de mera estratégia de relações públicas de determinadas empresas, interessadas na construção, através da propaganda, de uma certa imagem institucional perante a sociedade. Tais empresas fazem uso de tal apoio e de tais propagandas sociais a fim de construir uma imagem pública confiável e socialmente responsável através da propaganda institucional, que é uma área da comunicação onde interagem propaganda e relações públicas.

Assim, sempre que a RBS cria propagandas sociais tais como 'O amor é a melhor herança, cuide das crianças', está mais interessada na possibilidade de explorá-la através da propaganda institucional do que propriamente na solução do problema que a motivou, e, de modo semelhante, sempre que divulga as ações e apoios de sua fundação e de seu portal social a projetos sociais através de propagandas institucionais está mais interessada na possibilidade de trabalhar sua imagem perante a sociedade do que especificamente em problemas sociais propriamente ditos. Trata-se, em ambos os casos, do uso da propaganda institucional, de estratégias de relações públicas capazes de construir e solidificar no imaginário coletivo através de propagandas institucionais determinadas imagens, nada além disso.

A não ser, é claro, que vender para adolescentes a imagem de que o sexo é fácil e de que as mulheres são vulgares seja algo socialmente responsável e eu ainda não saiba. Não que eu precise me preocupar com isso, afinal de contas sempre haverá um programa social da Fundação Maurício Sirotski Sobrinho ou apoiado pelo Portal Social a fim de zelar por nossa juventude".

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Contemplar com eficiência

Trecho do editorial do jornaleco da Azenha de hoje, exaltando como "experiência inovadora" o projeto das OSCIPs, recém aprovado pela Assembléia farrapa:

"O recurso às parcerias com o setor privado só se justifica se implicar diminuição da burocracia no fornecimento de um determinado serviço, com redução de custos para o poder público e melhoria da qualidade para o consumidor final. Obviamente, esse tipo de inovação irá se chocar sempre com os interesses de corporações influentes de servidores, na maioria das vezes mais preocupados em garantir privilégios do que em contemplar com eficiência as aspirações dos contribuintes" (Os grifos são meus).

Bem, se alguém ainda não sabia o que o Grupo RBS pensava sobre a maioria dos servidores do funcionalismo público gaúcho, que ao contrário dos jornalistas de ZH não precisam lamber as botas de ninguém em função do fato de terem sido aprovados em transparentes concursos públicos, o texto acima, extremamente preconceituoso, generalista e rançoso, acaba de deixar isso bem claro.

A maioria dos professores da rede estadual e da Uergs, dos servidores da saúde, do judiciário e do ministério público gaúcho, bem como de toda e qualquer área pública, seja estadual ou não, ingressa no serviço público mais com o objetivo de garantir privilégios do que contemplar com eficiência as aspirações dos contribuintes. Isso de contemplar com eficiência as aspirações alheias só quem faz é a iniciativa privada, claro. É por isso, e não pelo lucro, que as corporação privadas existem. O sentido da existência do Grupo RBS é contemplar com eficiência as aspirações alheias, inclusive.

União cuncubinária

O senado uruguaio aprovou, por unanimidade, na noite da última terça-feira, 18, a lei da "união cuncubinária", segundo a qual "casais homo ou heterossexuais que vivem em concubinato terão direitos e deveres reconhecidos pela Justiça, como divisão de bens, direito de herança, pensões em casos de falecimento e outras vantagens do sistema de segurança social do país".

Com isso, o Uruguai se torna o primeiro país da América Latina a legalizar a união de casais homoafetivos.


Tal legislação, que agora precisa ser ratificada pelo presidente Tabaré Vasquez para entrar em vigor, entende como união cuncubinária "a situação em que duas pessoas, qualquer que seja o sexo, identidade ou orientação sexual mantêm uma relação afetiva por mais de cinco anos de índole sexual, de caráter estável e sem estar unidas pelo matrimônio".

Gazeio

O senador com maior número de faltas em sessões deliberativas neste ano foi ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL), que compareceu a apenas 44 das 119 realizadas até 12 de dezembro. Gazeteou 42,11% das sessões, portanto.

As duas únicas sessões deliberativas realizadas em 2007 que conseguiram reunir todos os 81 senadores foram as que livraram da cassação o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

Maiores detalhes na BBC Brasil e no Congresso em Foco.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Basta de hipocrisia na mídia!

Pois não é que, passeando um pouco por aquilo que Rosane de Oliveira pensa que é um blog, já que só por caridade pode ser assim considerado um espaço alimentado por uma retaguarda de profissionais de comunicação, o que já nos dá uma boa idéia das estratégias em andamento da mídia monopolista a fim de esvaziar e dar as cartas também na blogosfera, La Vieja encontrou argumentos que corroboram seu questionamento acerca da eficácia de campanhas de conscientização patrocinadas por agentes de desconscientização?

Eis a pérola:

"Palavra de especialista: só uma revolução cultural pode mudar esse quadro de culto à velocidade que resulta em tantos mortos no trânsito. É a opinião do psicólogo Salomão Rabinovich, diretor do Centro de Psicologia Aplicada ao Trânsito e presidente da Associação das Vítimas do Trânsito.

Com 35 anos de trabalho na área, Rabinovich lembra que, historicamente, as montadoras de automóveis usam a potência e a velocidade como apelo de venda".

Como La Vieja não é especialista e, mesmo que fosse, não seria ouvida pelos doutos do Grupo RBS, não vai adiantar nada dizer que, entre aquilo que Salomão Rabinovich entende por revolução cultural, muito provavelmente também se encontra uma rediscussão do papel e da responsabilidade da mídia na divulgação dos apelos de venda das fábricas e montadoras de automóveis.

Ou Rosane de Oliveira não entendeu nada do que disse Salomão Rabinovich ou não sabe que os veículos de comunicação do Grupo RBS são alguns dos principais responsáveis pela divulgação pública dos apelos de venda aos quais o referido psicólogo fez menção.

Basta de violência no trânsito?









"Basta de violência no trânsito!

Para tentar evitar a repetição da carnificina nas estradas e nas ruas que matou 379 pessoas no Rio Grande do Sul no verão passado, o Grupo RBS lança campanha de conscientização com o objetivo de mudar o comportamento do público que mais morre no trânsito - os homens de 18 anos a 29 anos

Em uma nova bandeira institucional, o Grupo RBS lança hoje um apelo pela paz nas estradas. A campanha Violência no Trânsito - Isso Tem que Ter Fim busca atingir o público que mais mata e morre no trânsito no Brasil, os homens jovens
" (Os grifos são meus).

O trecho acima abre reportagem de hoje na Zero Hora sobre a nova campanha institucional do Grupo RBS, Violência no Trânsito - Isso tem que ter Fim.

Legal isso. Louvável a iniciativa do Grupo RBS. Campanhas assim são uma mão na roda para o Estado, o principal interessado e maior beneficiado com a preservação das vidas de seus cidadãos e pela economia feita com os custos envolvidos em acidentes de trânsito, desde seguros obrigatórios até internações hospitalares, indenizações e custos processuais.

Mas, sem sombra de dúvidas, a principal preocupação do Estado em relação a essa questão, bem como seu maior mérito, é sempre preservar a vida de seus cidadãos. É esse um dos motivos pelos quais ele existe, aliás.

Entretanto, grupos e veículos de comunicação poderiam engrandecer seu trabalho de ajuda ao Estado se fossem menos hipócritas.

Não se vê nenhum deles dizer não às gordas verbas publicitárias de anunciantes que vendem e incentivam o culto à velocidade e à potência, como bem demonstra o comercial acima, que junto ao consumo de álcool e à imprudência são, no final das contas, os grandes responsáveis pelos acidentes com morte envolvendo exatamente os homens jovens de 18 a 29 anos. São eles os mais metidos a facão sem cabo e alvos preferenciais de agências de publicidade, montadoras e fábricas de automóveis. A propósito, também não se vê nenhum deles dizer não às verbas publicitárias de fabricantes de bebidas alcoólicas, que em geral direcionam seus produtos ao público masculino ao estilo macho jovem repleto de testosterona. Alguns deles, aliás, em eventos musicais litorâneos de verão direcionados a adolescentes e a adultos recém saídos, pero no mucho, da adolescência de 18 a 29 anos, fazem vistas grossas à venda e ao consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes nos entornos de tais eventos e até mesmo no próprio local onde são realizados, quando não raro os adultos recém saídos, pero no mucho, da adolescência as compram e espertamente as repassam aos adolescentes não saídos da adolescência.

Bem, La Vieja só tentou dizer que tentar conscientizar homens jovens de 18 a 29 anos de que o excesso de velocidade aliado ao consumo de álcool e à imprudência é uma mistura que pode conduzir à morte ficaria muito mais fácil se, ao mesmo tempo, não se vendesse idéias como as de que "sua potência sexual é diretamente proporcional à potência de seu carro" e "sua sensação de liberdade é diretamente proporcional à velocidade de seu automóvel", ou mesmo de que "você é mais sexy do que beltrano se consumir tal ou tal whisky" e de que "todas as gostosas do mundo cairão a seus pés se você consumir a cerveja x, pois elas também a consomem".

E antes que alguém pense que La Vieja está sendo ingênua ou algo que o valha ao supor que veículos de comunicação não têm nenhuma responsabilidade pelos anúncios que veiculam, o The New York Times não aceita comerciais de cigarros há quase dez anos, e há uma agência de publicidade estadunidense, da qual La Vieja não lembra o nome, que por livre e espontânea vontade jamais fez sequer um anúncio para a indústria do tabaco.

Abaixo, uma campanha da Norwich Union, da Aviva, maior companhia de seguros do Reino Unido, mostrando algumas conseqüências de se dirigir em alta velocidade:




Legal e efetivamente

Ontem, por 37 votos a 17, a politizada Assembléia Legislativa farrapa aprovou "o projeto do Executivo que institui o marco regulatório para a atuação das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscips) no Estado".

Convém ressaltar, entretanto, que o secretário de Justiça e de Desenvolvimento Social do novo jeito de tergiversar, Fernando Schüler, um tucano coerente, ainda não tem a menor idéia de que áreas seu governo pretende repassar às OSCIPs.


Também convém não perder de vista que "O aval da Assembléia para as OSCIPS é uma das contrapartidas acertadas pelo Estado junto ao
Banco Mundial para garantir o empréstimo de US$ 1 bilhão obtido no início de dezembro", empréstimo esse, como sabemos, contratado pelo antes desenvolvimentista, mas hoje fiscalista Aod Cunha, tesoureiro-mor do novo jeito de equilibrar de Yeda Crusius (PSDB), a fim de pagar empréstimos contratados ainda no novo jeito de governar de Antônio Britto, The Salesman (1995-1998).

A Zero Hora de hoje, que chama tudo isso de "novo modelo de parceria", se propõe a responder algumas impertinentes questões relativas às principais motivações por trás das intenções do empresariado interessado em assumir tais parcerias, que o Grupo RBS, como se sabe, entende tudo de cidadania. Mas não consegue, evidentemente. Não passa nem perto, na verdade.


"O que motivaria uma Oscip a assumir um órgão ou serviço público?", pergunta-se e já responde a soliloquista Zero Hora:

"Muitos órgãos, principalmente da área cultural, já recebem o apoio de organizações sem fins lucrativos, na forma das 'associações de amigos'. As Oscips poderão formalizar essa situação. Como atrativo para as Oscips estaria a possibilidade legal de administrar efetivamente os órgãos que assumirem
" (Os grifos são meus).

Embora a Zero Hora se esforce para vender a idéia de que se as OSCIPs se tratam de abnegadas instituições e associações de amigos gerenciadas por não menos altruístas empresários que, sem medo de avançar e com modernidade e coragem, imediatamente reduzirão custos e aumentarão a eficiência das áreas que administrarem graças ao condão do liberalismo e do estado mínimo, não é pura e simplesmente a possibilidade legal de administrar efetivamente os órgãos que assumirem que atrairá empresários e OSCIPs a tais parcerias com a coisa pública, mas sim a possibilidade legal de efetivamente administrarem verbas públicas com dispensa de licitação e de se remunerarem por isso com os mesmos salários pagos na iniciativa privada, nada além disso. Essa é a principal motivação por trás do aparente desprendido interesse das OSCIPs. Ninguém vai assumir um órgão público simplesmente para "fazer cultura", pois quem realmente quer "fazê-la" pode muito bem prescindir disso, e com a grande vantagem de não ser controlado em suas ações, e ao menos é o que a partir de agora se espera, já que já se foi o boi com a soga, pelo estado.


São as expressões administração de verbas públicas com dispensa de licitação e remuneração semelhante à praticada na iniciativa privada que se escondem por trás dos termos legal e efetivamente, acima utilizados por ZH. Daí, então, o pouco zelo em clarificá-los.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

As velhas e boas cuecas



A postagem intitulada "Cansadinhos: ética e bons modos na teoria. Na prática, pirataria!", do Dialógico, que revelou à La Vieja que a "classe social que proporcionalmente mais alimenta o mercado de produtos falsificados é justamente a dos ricos, que teria condições financeiras para comprar artigos originais", calhou de ser um ótimo gancho para mais uma postagem de nossa série flashback.

La Vieja lembra-se, se não se engana, que quem muito dela se apeteceram foram Iagê e Guga Türck. É a eles, então, que ela lha dedica.

Como de praxe, esclarecimentos podem ou não ser inseridos na postagem, principalmente quando for o caso fazer menção a datas. E os enlaces que não mais funcionam, não funcionam mais.

"Quem tem TV por assinatura já deve ter visto a propaganda acima, peça que compõe uma campanha antipirataria organizada pelo Sindicato das Empresas de TV por Assinatura (SETA), entidade patronal representante da ABTA - Associação Brasileira de TV por Assinatura. O nome da campanha é 'Pirataria na TV por Assinatura: Não, não pode não'.

A moral da estória, basicamente, é a de que quem furta sinal de TV não tem moral nenhuma para ensinar algo a quem quer que seja sobre comportamento ético. É a lição da velha e boa moral de cuecas: se um pai furta sinal de TV está moralmente desautorizado a exigir que seu filho não roube ou furte brinquedos, pois do contrário, diz o vulgo, 'estaria pregando moral de cuecas'. Como mensagens secundárias ficam as de que (i) o exemplo de casa é fundamental no processo educativo de crianças, por vezes condicionando a formação de suas personalidades, e de que (ii) se há tolerância para um delito considerado 'pequeno' pela própria sociedade não há nenhum motivo para que outros 'pequenos' delitos não sejam também tolerados, o que pode descambar em uma permissividade escabrosa e sem freios.

O SETA crê que 'a pirataria, apesar de ser encarada como uma atitude ilícita, não causa indignação à população', segundo a ABTA. Ainda conforme tal associação, a referida campanha tem como principal objetivo 'conscientizar a sociedade, de maneira efetiva, sobre as perdas morais que a pirataria semeia dentro dos lares brasileiros. Sob esta ótica, a campanha utilizará uma abordagem educativa, mostrando que a pirataria é crime e que, se o sinal de televisão pode ser roubado, muitas outras coisas também podem'.

Antonio Salles, diretor do SETA e coordenador da Comissão Antipirataria, chega a dizer que 'A pirataria resulta em severas perdas ao Estado e à Sociedade como um todo, provocando a eliminação de postos de trabalho legais e sonegação de impostos em cadeia, sem contar os prejuízos econômicos e financeiros do próprio setor', segundo a ABTA.

Jóia isso. Belos textos e belas falas. Legal também a preocupação do SETA e da ABTA com as perdas morais que delitos como a pirataria semeiam nos lares brasileiros, bem como a preocupação de Salles com as perdas do Estado e da sociedade quando delitos semelhantes são praticados. Loas, também, à sua preocupação com a sonegação de impostos.

Este pequeno giro pela pagina virtual da ABTA também foi legal porque descobri que 'No quadro de associados da ABTA estão 95% das empresas de TV por Assinatura, entre representantes de operadoras, fornecedores de equipamentos, prestadores de serviços, programadoras e instituições que mantêm intercâmbio técnico ou informativo com a entidade'. Graças a isso descobri que uma operadora, por exemplo, 'é a empresa responsável pela distribuição de sinais de TV por assinatura' e que 'Ela capta os sinais dos canais contratados ou dos canais abertos, processa-os e os envia aos assinantes pelo cabo, microondas ou satélite'.

Foi em função disso que descobri, finalmente, que a NET Serviços Porto Alegre é uma operadora associada à ABTA. Ora, como a NET Serviços Porto Alegre é uma empresa do grupo NET Serviços, por sua vez um grupo comandado pela mexicana Telmex e pela Globo Participações, da família Marinho, então a NET Serviços, empresa da Globo Comunicação e Participações SA (Globopar), muito provavelmente também é associada à ABTA.

Bem, mas se a InfoGlobo Comunicações SA, a Rádio Globo SA e a Globo.Rede SA, também elas empresas da Globo Comunicação e Participações SA, devem, juntas, em torno de R$ 22 milhões para a Previdência Social, que moral tem uma empresa pertencente à família Marinho para assinar embaixo de uma campanha preocupada com sonegação de impostos e com crimes que resultam em severas perdas ao Estado e à sociedade como um todo? Acaso não recolher a contribuição previdênciária não traz ululantes maiores prejuízos ao Estado e à sociedade como um todo do que o furto de sinal de TVs por assinatura? Acaso também não é 'só para se divertir' nas Bahamas e na Europa às custas do trabalhador brasileiro que tais contribuições não são recolhidas?

Bem, era mais ou menos isso que a campanha da ABTA queria dizer com 'moral de cuecas', para quem ainda não entendeu nadinha até agora.

Mas tenha santa paciência.

Fico aqui pensando, com meus botões, o que dizem executivos de empresas de comunicação que não recolhem contribuição previdenciária quando seus filhos lhes perguntam, no mesmo tom da campanha da ABNT, o que é um sonegador de impostos, ou alguém que não cumpre com suas obrigações patronais. Aliás, empresas de comunicação também são especialistas em sonegar ICMS. Aqui no RS, por exemplo, elas estão entre os maiores sonegadores.

Não há de ser nada. Ainda bem que temos uma classe empresarial exemplar do ponto de vista moral, pelo menos quando se trata de preservar seus interesses econômicos. O resto é pura moral de cuecas.

'(...) conscientizar a sociedade, de maneira efetiva, sobre as perdas morais que a pirataria semeia dentro dos lares brasileiros (...)'.

Caramba, mas era só o que nos faltava..."


Nota oficial

No espaço editorial da Zero Hora de hoje, nota oficial dos novos jeito de governar estadual e porto-alegrense, a respeito da recente avaliação do Datafolha:

"A má avaliação do desempenho dos ocupantes de cargos executivos pelos gaúchos na mais recente pesquisa Datafolha reflete em parte as dificuldades enfrentadas pelos governantes para conciliar o enfrentamento da crise nas finanças públicas com as aspirações da sociedade. O levantamento, realizado entre os dias 26 e 29 em 10 Estados e 10 capitais, indica que tanto a governadora Yeda Crusius quanto o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, enfrentam o ônus de terem dado ênfase à busca do equilíbrio das contas públicas, o que costuma significar menos obras de grande visibilidade e mais conflitos com corporações do setor público e líderes da iniciativa privada (...)


Nas duas situações, é preciso levar em conta as dificuldades financeiras enfrentadas pelo poder público, particularmente no âmbito estadual. Além disso, os gaúchos são conhecidos pelo rigor com que elegem seus políticos e pela permanente cobrança de bom desempenho depois da posse. Ainda assim, é sempre preocupante o fato de os governantes acabarem gerando tanta frustração entre os eleitores, deixando até mesmo de cumprir compromissos assumidos durante a campanha eleitoral, simplesmente por falta de recursos
" (Os grifos são meus).

La Vieja fica aqui pensando, com seus botões, que raios de conflitos teriam sido esses entre José Fogaça e líderes da iniciativa privada, e se foi falta de recursos ou de capacidade administrativa que inviabilizou promessas de campanha de Yeda Crusius.

Pena de morte

O Estado estadunidense de Nova Jersey pôs fim à pena de morte.

"Pela primeira vez em mais de 40 anos um Estado americano proibiu a pena de morte", segundo a BBC Brasil.


Uma comissão estadual "concluiu que executar criminosos é mais caro do que mantê-los na prisão pelo resto de suas vidas, e que a pena de morte não é eficaz para dissuadir pessoas a cometerem assassinatos".

Como não dá para esperar muito humanismo de argumentos políticos estadunidenses, claro que as razões foram puramente pragmáticas.

O que, no final das contas, neste caso pouco importa.


RS Vip

A coluna de Rosane de Oliveira de hoje mais uma vez saiu no lugar errado:

"Presente de Natal antecipado para o deputado Nelson Marchezan Júnior (PSDB): sua namorada, a vereadora Nadine Dubal, de São Borja, recebeu a confirmação de que está grávida.

O bebê deve nascer às vésperas da eleição de 2008.

Nadine e Marchezan são pré-candidatos a prefeito. Ela em São Borja, ele em Porto Alegre.

Por enquanto, o casal não quer falar de eleição: a prioridade é curtir a boa notícia".

Absolutamente ninguém, à exceção dos parentes dos insignificantes e carreiristas profissionais da política nomeados acima, se importa nem com o presente antecipado de Marchezan Júnior e nem com a gravidez de sua esposa. São fatos absolutamente irrelevantes para a política gaúcha, embora talvez não o sejam para a coluna de Rosane de Oliveira.

É incompreensível que alguém que só precise escrever algumas linhas por dia, em geral já previamente definidas pelos releases oficiais e patronais, precise abordar este tipo de tema. Chega a ser um desaforo à inteligência de seus leitores.

Provavelmente não havia nada mais interessante para se comentar hoje, muito embora
"A governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius", tenha tido "a pior avaliação do país em um levantamento do Instituto Datafolha", que mostrou que "Yeda ficou com média 4,2%".
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Talvez, em função disso tudo relatado acima, seja preciso reformular esta outra notinha também publicada hoje pela fashion colunista,

"Em meio à escassez de recursos, a criação da Escola de Governo é uma boa iniciativa: a qualificação dos servidores públicos pode ajudar o Estado a sair do atoleiro".

que passaria a ter a seguinte redação:

"Em meio à diminuição do número de assinantes e das vendas em bancas, a criação da Escola de Jornalismo é uma boa iniciativa: a qualificação dos assalariados da Zero Hora pode ajudar o Grupo RBS a sair do atoleiro".

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Nós e os selvagens

O título da reportagem é "Faixa de insegurança para motoristas", mas bem que poderia se chamar "Horda de pedintes aterroriza homens de bem".

Trata-se, no final das contas, de mais um capítulo da série criminalização da miséria, brilhantemente estrelado pela Zero Hora e, desta feita, com a participação especial dos homens de bem.

Segundo o jornaleco da Azenha,
"Uma regra de trânsito, que orienta motoristas a pararem o carro logo antes da faixa de segurança nas sinaleiras, chegou ao extremo em Porto Alegre.

Assustados pelas abordagens ostensivas de pedintes em cruzamentos de grande movimento, condutores se distanciam cada vez mais do sinal, deixando vãos de até cinco metros de distância da faixa - e de quem pede".

Daí, para que não paire nenhuma dúvida, o criativo título "Faixa de insegurança para motoristas", sacaram?

Os limpadores de pára-brisas, os pedintes e os vendedores ambulantes que se amontoam pelas avenidas Ipiranga e Bento Gonçalves, intimidadores, costumam se aproximar ostensivamente de suas vítimas e constrangê-las. La Vieja espera, ao menos, que Zero Hora não tenha querido aqui usar o termo constrangimento em seu sentido de acanhamento.

Pois bem. Aproximam-se agressivamente dos motoristas as hordas assustadoras de miseráveis com suas expressões inibidoras, não sem deixar no ar que podem agredir. Eles, os selvagens,
que "são extremamente assustadores e vêm em bando, intimidam mesmo".

A equipe de ZH também foi vítima da ação selvagem dessa horda. Um deles, "
ao ver a equipe de Zero Hora, levantou o rodo em direção ao fotógrafo, em posição intimidatória, insistindo para que a equipe se retirasse". Eles, os selvagens e seus rodos.


Zero Hora, por sua vez, que não tem pruridos nem nada, não se constrange e designa o comportamento acima descrito pelos três (03) motoristas ouvidos por sua reportagem como extorsão, como comprovam as imagens acima e ao lado.

Vejamos, então, o que o Código Penal, pelo menos até o último sábado a referência teórica para o enquadramento de uma determinada ação como comportamento criminoso, diz sobre o termo extorsão.

Conforme o Código Penal, em seu artigo 158, extorsão é "constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer alguma coisa". A pena cabível, nestes casos, é a de reclusão, de 04 a 10 anos, e multa. E se a extorsão é cometida por duas ou mais pessoas ou com o emprego de arma, então tal pena é aumentada de um terço até a metade.

Segundo Cezar Roberto Bitencourt, em seus comentários ao Código Penal, em relação à extorsão "a conduta tipificada é constranger (coagir, obrigar), mediante violência (física, real) ou grave ameaça (vis compulsiva, violência moral)" (Os grifos são meus).

Não é bem isso que fazem as assustadoras hordas de miseráveis que constrangem os homens de bem nas sinaleiras porto-alegrenses. Muitos outros motoristas que circulam por tais avenidas, bem como inúmeros outros moradores da capital gaúcha, não consideram o comportamento destes assustadores cidadãos que vêm em bando como extorsão, mas sim como uma conseqüência atual de um passado de exposição a situações de risco social decorrente de uma série de complexos fatores.

Mas isso não importa muito para ZH, que provavelmente acredita que o uso de rodos e o trabalho em equipe dos
limpadores de pára-brisas, dos pedintes e dos vendedores ambulante devam caracterizar seus comportamentos como extorsão majorada, já que cometida por duas ou mais pessoas e com o emprego de arma.

Criminalização de movimentos, demandas e condutas sociais marginalizadas, junto à sua invisibilização, são os amortecedores sociais utilizados pela mídia a fim de negacear a luta e os conflitos de classe no modo de produção capitalista, serviço que muito serve a quem mais se beneficia nesse modo de produção. Nesse caso específico, invisibiliza-se o problema social da miséria estrutural decorrente da natural desigualdade no processo de distribuição de renda no modo de produção capitalista através da criminalização da conduta desses próprios miseráveis. A discussão, que deveria se dar em torno do contexto de produção social de tal comportamento criminalizado, desloca-se para a superficialidade do problema do comportamento em si mesmo. E por estar na superfície é que ZH prefere vê-lo.

Deste modo, bem antes de serem o produto mais bem acabado de um status quo histórico, são criminosos. Não são tratados como conseqüência dessa perversa ordem, mas sim como sua própria causa, em uma peculiar leitura que inverte de modo surpreendente os fatores dessa complexa equação social.

Redução indireta da maioridade penal

Segundo a Zero Hora, em "Ampliada pena para menores",

"A Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado aprovou na quarta-feira o projeto de lei do deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS) que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente para ampliar o tempo máximo de internamento de menores infratores de três para oito anos, quando o ato infracional seja praticado mediante violência ou ameaça grave à pessoa ou em caso de crime hediondo.

O projeto ainda autoriza que os maiores de 21 anos terminem de cumprir a medida socioeducativa em estabelecimentos penais comuns. Segundo o relator, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), essa decisão é um forte argumento para evitar a discussão sobre a redução da maioridade penal para 16 anos".

Em primeiro lugar, algumas impertinentes observações que, ao contrário do que poderia sugerir uma leitura apressada, não se tratam de preciosismos. É equivocado se utilizar o termo "pena", como faz ZH, para descrever o período de internação de adolescentes infratores. Adolescentes que cometem atos infracionais são submetidos a um período específico de internação a fim de cumprir medidas sócio-educativas estabelecidas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), portanto não cumprem penas. Outro termo equivocadamente utilizado por ZH é "menores", uma vez que tal termo foi banido do vocabulário jurídico especializado desde que o referido estatuto foi sancionado, ainda em 1990, pelo então presidente Fernando Collor. Não é gratuitamente, então, que ele se chama estatuto da criança e do adolescente, e não estatuto dos menores. Trata-se de obrigação profissional informar adeqüadamente os leitores, o que ZH não faz.

Bem, passemos à proposta de Perondi, que é problemática por dois motivos.

O primeiro deles é o fato do legislador, mais uma vez, tentar resolver o problema da maneira mais fácil: recrudescendo a lei. Tal estratégia, além de não atacar o problema da violência praticada por adolescentes em sua origem, empurra com a barriga sua solução e, ao fim e ao cabo, equivale à uma redução da maioridade penal às avessas. O projeto parece antes preocupado em trancafiar adolescentes atrás das grades por mais tempo do que com o que pode ser feito para que cada vez mais menos deles cometam atos infracionais.

Em uma situação hipotética, um adolescente de 17 anos de cometesse um roubo à mão armada poderia ter aumentado seu tempo máximo de internação para cumprimento de medida sócio-educativa de 03 para 08 anos. Aos 21 anos, depois de 04 anos de internação, cumpriria o restante da medida, mais 04 anos, e aí já não mais podemos falar em cumprimento de medida sócio-educativa, em estabelecimento prisional convencional.

Isso trata-se, na prática, de um belo eufemismo para "ele pode nos escapar agora que tem 17 anos, mas não escapará das grades aos 21". No final das contas, em determinados casos, adolescentes sentenciados ao cumprimento de medidas sócio-educativas estarão sendo condenados à prisão antes dos 18 anos. Tem razão o deputado Carlos Sampaio ao afirmar que se torna desnecessária a discussão sobre a redução da maioridade penal para os 16 anos, pois ela estará sendo posta em prática indiretamente.

E isso nos conduz ao segundo problema de tal projeto. Não convém, sob hipótese alguma, misturar um sistema que prevê a internação de adolescentes para o cumprimento de medidas sócio-educativas, pois a "
internação constitui medida privativa da liberdade, sujeita aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento" (ECA, cap. IV, seção VII), com um sistema ancorado no Código Penal, que prevê a ressocialização punitiva de adultos. Pessoas bem mais qualificadas do que La Vieja e do que Perondi estabeleceram determinadas fronteiras entre as personalidades de adolescentes e de adultos, e muito com base em tais delimitados territórios os referidos sistemas foram pensados.

Sobre reis, um certo civismo e ascendências nobres

Do prefeito de Santa Cruz de la Sierra, Percy Fernández, em manifestação pública de lançamento do "estatuto da autonomia" pelos departamentos bolivianos de Tarija, Beni, Pando e Santa Cruz, esse o mais rico do país, que pretende reconhecer "ao governo nacional competência nas relações exteriores, na defesa e na moeda", mas que aspira criar "sua própria polícia, seu Judiciário e o controle sobre dois terços dos tributos arrecadados no departamento":

"Evo Morales quer ficar com todo o poder, com todo o dinheiro e com toda a indiada".

Embora Zero Hora tenha afirmado, em "Festa da autonomia vira carnaval", que Percy Fernández teria
deixado "escapar o preconceito racial em sua fala", o incidente foi definido como um caso de "agressão verbal".

"A questão étnica é um fator relevante na política boliviana", continua ZH.

Embora a Bolívia seja historicamente dividida "entre descendentes de europeus, de incas (que vivem nas regiões montanhosas e formam a base de apoio de Morales) e de guaranis (muitos deles nascidos em Santa Cruz)", o que implica que "Cerca de 70% da população do país" tenha "origem indígena", a oposição boliviana, cuja base repousa sobre os 30% restantes sem ascendência indígena, ainda continua afirmando que o presidente Evo Morales, ele próprio um descendente indígena, "
usurpou o poder com a nova Constituição".

Trata-se, então, de algo mais do que um simples caso de agressão verbal. As palavras que, como diria Homero, escaparam da barreira dos dentes de Percy Fernández são constitutivas de suas aspirações de autonomia. Não foram um deslize. O que Percy quer, no final das contas, é historicamente manter a autonomia de sua ascendência, como, via de regra, sempre foram as aspirações colonialistas nas Américas.

Um certo rei espanhol, que ainda existem reis, deixou isso muito claro dia desses.

Eu fico aqui pensando o que eu diria para minha filha caso ela me perguntasse o motivo pelo qual ainda existem reis.
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A Assembléia Provisional Autonomista dos departamentos segregacionistas pretende submeter sua proposta de autonomia a um referendo popular. Em seus respectivos departamentos, evidentemente. "
A idéia anterior era reunir 1 milhão de pessoas em um grande comício e aprovar o texto por aclamação", ainda segundo ZH. O acirramento das tensões étnicas e de classe, no entanto, teriam arrefecido o ímpeto cívico da elite boliviana.


"Decidimos pelo referendo para não haver dúvidas sobre a legalidade do processo. Assim, ganhamos legitimidade dentro e fora do país", teria dito Brian Costas, porta-voz do Comitê Cívico de Santa Cruz.

domingo, 16 de dezembro de 2007

"Preferimos continuar sendo só bolivianos"

No Diário da Cratera Urbana, os ecos das palavras finais de Túpac Catari no conflito de classes em curso na Bolívia, definido pelo jornaleco da Azenha como meros conflitos pela autonomia.

Espectros

Marcelo Rech é um intelectual fracassado.

Ilude-se ao pensar que é erudito, pois se esquece que trabalha em um jornal, que serve para embrulhar peixe no dia seguinte. Peter Strawson, no prefácio de "Análise e Metáfisica", rejeitando o caráter elementar, porém introdutório, da referida obra, afirma que "Não existe filosofia elementar. Não há fundos rasos nas águas da filosofia".

Pois não há senão imensos e estéreis fundos rasos nas águas do jornalismo gaúcho.

Nunca desprezem as mágoas que escorrem pelas palavras de um desprovido dos dotes do espírito. Elas, essas pobres e inimputáveis unidades de significação, são repletas de esperanças vãs e de anseios malogrados, espectros com os quais a condição humana por vezes escarnece de quem é uma cópia imperfeita das irrefletidas expectativas de si mesmo. Delas é inseparável o fardo da convivência com suas próprias e miseráveis limitações, e o que supostamente de direito se quer ser enevoa a autopercepção daquilo que de fato se é, uma mera imagem distorcida de grandes expectativas malsucedidas, frustrada pela franqueza da sábia, porém acidental, natureza. Espectros de irrefletidas e mal-sucedidas promessas de si mesmos é o que eles, os frustrados, também são.

As grandes expectativas e a firme convicção de que a natureza falhou em algo, inebriente negação anestésica de si mesmo, porém, jamais abandonam, pois suas constituintes, o ser frustrado em suas ambições de espírito.

Ver a si mesmo como predestinado a tarefas excelsas, ou bem reservadas a homens de fortuna, por exemplo, são comuns entre tais humanas, demasiadas humanas tristes espectrais figuras.

Tal é o caso da comparação estabelecida pelo diretor de redação da ZH, neste domingo, entre o chamamento de Winston Churchill ao necessário esforço pós-guerra posterior ao breve momento de regozijo que se permitia a Grã-Bretanha logo após o Dia da Vitória, em 08 de maio de 1945, e, pasmem os senhores, a conclamação de ninguém mais ninguém menos do que o próprio Marcelo Rech à luta pela informação, logo após o breve momento de regozijo que se permitiu a redação da Zero Hora depois da inauguração de suas novas instalações.

Afirmou Marcelo Rech:


"No Dia da Vitória na Europa, em 8 de maio de 1945, o primeiro-ministro Winston Churchill dirigiu-se pelo microfone da BBC às multidões em festa nas ruas da Grã-Bretanha.

– Podemos nos permitir um breve momento de regozijo, mas não vamos nos esquecer do enorme trabalho e dos esforços que estão à nossa frente – discursou, ao lembrar que começava ali a reconstrução do país e o empuxe final para as batalhas no front do Pacífico.

Pois na sexta-feira à tarde, em um contexto muito diferente, é claro, a redação de Zero Hora se permitiu o seu breve momento de regozijo em meio à batalha pela informação. Jornalistas e dirigentes da RBS, pessoal de apoio e colegas de outras áreas da empresa se uniram para celebrar as novas instalações da redação. Muito além de uma remodelagem do layout e da renovação de equipamentos, inaugurou-se formalmente ali a era em que, em um mesmo espaço jornalístico, passou-se a construir ao longo do dia mais do que um único produto editorial" (Os grifos são de La Vieja).

Os delírios, porém, não param por aí:

"A celebração da nova redação, como lá no caso do Dia da Vitória, é apenas uma etapa (...)

A filosofia na qual se assentam as próximas etapas está gravada na placa de bronze descerrada na redação na sexta-feira, com as presenças de Jayme Sirotsky, presidente do Conselho de Administração do Grupo RBS, e Nelson Sirotsky, diretor-presidente. No bronze, daqui a muitas décadas, os que vierem a ocupar esta redação poderão ler que, em 14 de dezembro de 2007, lançaram-se as bases do futuro, 'alicerçado nos valores presentes e passados da ética, da independência e do compromisso com o público'.

Tais fundamentos garantem que, seja qual for o meio em que trafegue a informação, a marca Zero Hora estará sempre associada à qualidade, à credibilidade e à responsabilidade de todos nós de entregar ao público um jornal com crescentes e salutares graus de exigência" (Os grifos são meus).

Em uma coisa talvez Marcelo Rech tenha razão. Se seus patrões passarem a jogar limpo e dizerem quais interesses realmente representam, quem sabe no futuro as bases hoje lançadas assentem algo minimamente próximo daquilo que se pode chamar de ética. Tarefa ingrata, porém, pois ao contrário do que afirmam seus diretores, jamais a Zero Hora esteve alicerçada, nem no passado e nem no presente, na ética, na independência e no compromisso com o público.
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Quanto a expressões supostamente apaziguadoras como "em um contexto muito diferente, é claro...", não se enganem. Elas são a verbalização do inconsciente mecanismo de amenização de delírios ao qual está sujeito todo espectro de auto-expectativas malogradas. É assim que ele, mesmo sem saber, se faz marionete de si mesmo, desse modo perpetuando sua condição, na qual ele gosta e prefere permanecer por uma série de conveniências.

Até nisso a natureza é sábia.

Shakespeare e a esquerda

O jornaleco da Azenha impresso tem um espaço dedicado exclusivamente ao debate com seus leitores.

Pelo menos é o que pensam Marcelo Rech, editor de Zero Hora, Pedro Chaves e Maria Amélia Vargas, respectivamente editor e editora assistente da referida ágora virtual.

O negócio parece funcionar assim: ZH lança uma pergunta na edição impressa de sábado e ela é respondida por seus leitores até o próximo, quando então são publicadas suas opiniões, ou ao menos parte delas, e feita uma nova pergunta.

Nesse sábado, 16, o tema proposto para debate na semana anterior havia sido "Você acredita que o governo federal vai ajudar o Rio Grande do Sul a sair da crise?". Antes de mais nada é preciso deixar claro que não há mais nenhuma clarificação daquilo que entende a Zero Hora pelo termo "ajudar', cabendo sob ele tanto supostas obrigações federais quanto uma sua suposta boa vontade. Mas a proposital ausência de maiores esclarecimentos, evidentemente, bem como a falta de rigor argumentativo, fazem parte do jogo do Grupo RBS. Não, claro, que eles sejam qualificados intelectualmente para fazer isso de outro modo.

A íntegra do debate encontra-se aqui, junto a questões relevantes como "A camisa do Grêmio caiu bem para Peter?" e "Você está preparado para enfrentar as filas para as compras de natal?".

Embora 28 leitores de ZH tenham manifestado suas opiniões sobre o referido tema, por carta ou por email, somente 16 delas foram publicadas no jornal impresso do Grupo RBS.

As que foram publicadas no jornal impresso, que tem milhares, senão milhões de leitores contra a meia dúzia de gatos pingados que acessa o conteúdo dito interativo e reservado ao debate pela Zero Hora.com, número que seguramente rivaliza com os acessos diários de La Vieja, dizem muito tanto sobre o caráter institucional do Grupo RBS, se é que se pode falar assim de uma empresa capitalista no final das contas formada somente por pessoas, quanto sobre suas preferências ideológicas, aquilo que tal grupo, no final das contas, legitima.
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Seria interessante que os leitores de La Vieja, antes de continuarem a leitura dessa discussão, ampliassem a imagem acima, que se trata da reprodução das 16 opiniões de leitores ontem publicadas pela edição impressa de ZH. Elas foram numeradas de 01 a 16 por La Vieja a fim de conduzir a análise do referido debate.

Ver-se-á, então, que cinco (05) delas (as de números 04, 07, 15, 08 e 10) evocam o glorioso e virtuoso passado separatista farrapo e a ditadura de Getúlio Vargas contra o "sistema federativo corrupto e concentrador" de Brasília, pois como cantam a plenos pulmões os integrantes e simpatizantes do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), povo que não tem virtude acaba por ser escravo, como os negros de saladeiros do século XIX.

Duas (02) delas (as de números 01 e 14) , por seu turno, tomadas pelo espírito natalino, acham mais seguro "acreditar em Papai Noel".

Quatro (04) delas (as de números 02, 05, 09 e 11), por sua vez, navegam ou pelo voluntarismo tecnicista a-ideológico ou pelo desencanto com a política em si mesma, algo que almofadinhas com MBA adoram chamar de neutralidade, que almofadinhas com MBA adoram ser neutros, assim mesmo, tipo sabonetes.
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As cinco (05) restantes merecem uma análise mais pontual, embora as anteriores também revelem algo tanto sobre o mencionado caráter institucional de Zero Hora quanto sobre suas preferências ideológicas, que não são, no final das contas, senão o reflexo daquelas de determinada parcela de nossa sociedade de líderes e vencedores, ou de boçais que os têm como referências teóricas e humanas, embora entre eles não existam somente pessoas desprezíveis.

A primeira destas cinco (05) restantes, a de número 03, é a que mais nos fornece informações sobre o discutível caráter do Grupo RBS, na medida em que um grupo de pessoas, e não das pessoas que o formam, pode ou não possuí-lo. Vejamos porque.

Luiz Alberto Zeilmann, advogado de Passo Fundo, segundo aquilo que foi impresso pela Zero Hora de sábado, 15, teria afirmado o seguinte sobre a questão levantada pelo Grupo RBS:

"Não acredito. Entendo que a proposta de campanha da governadora impediu que o Estado tivesse um governo alinhado com o federal. Agora, não adianta chorar o leite derramado".

No entanto, se visitamos o endereço no qual se encontra a íntegra da manifestação de Luiz Alberto, lemos o seguinte:


"Não acredito. Entendo que a proposta de campanha da da Governadora, novo jeito de governar, impediu que o Estado tivesse um Governo Estadual alinhado com o Federal. Agora não adianta "chorar o leite derramado" e culpar o Governo Lula pela crise do Estado" (Os grifos são de La Vieja).

Estranhamente foram eliminados, na versão impressa do referido debate, as expressões "novo jeito de governar" e "e culpar o Governo Lula pela crise do Estado" de Luiz Alberto, que no entanto aparecem em sua manifestação original.

Talvez também tenha sido por isso que ZH resolveu não publicar, em sua edição impressa, tanto as manifestações de Pedro Siqueira, de Porto Alegre, de Pedro Cardoso, de Santa Rosa, de Luiz Moreira, de São Leopoldo, e de Jair Matias da Rosa, de Porto Alegre, que são respectivamente as seguintes, na íntegra e em seus formatos originais:

"
O Lula não deve ajudar. A Yeda deve mostrar o "NOVE JEITO DE GOVERNAR". o LULA investe no RS como nenhum presidente fez. Polo Naval,parque aeólico, Usina Charqueadas (30 anos parada) duplicação BR 101 em ritmo acelerado. Construção de 15 penitenciárias. 1 Bilhão em Saneamento.O RS NÃO INVESTE NADA".

"NÃO,PARA ELES O GOVERNO LULA É O PIOR GOVERNO QUE ESTE PAIS JÁ TEVE FOI AQUI QUE O LULA OBTEVE A SUA GRANDE DERROTA,E NÃO AJUDAR NÃO SIGNIFICA SER RANCOROSO, O ESTADO TEM AUTONOMIA FINANCEIRA. QUISERAM SER GOVERNO VIREM-SE. NO RS HÁ O DESMONTE DA EDUCAÇÃO, NO BRASIL INCLUSÃO PRÓUNI ENTRE OUTROS".


"Durante o governo Olivio, a Ieda foi uma das partes interessadas em boicotar aquele governo,e seu partido tinha o governo federal. Porque agora ela, após arrotar grandeza como um gênio administrativo, espera socorro que negou aos outros".


"O governo Yeda representa o mesmo feudo politico que governou nosso país e estado durante decadas, que ajudou a criar as desigualdedes e crises que hoje não se consegue resolver, nosso estado n merece um governo tão arrogante cmo este e o LULA recebe e dialoga dando mostra de como se faz politica".


Resumo da ópera: o democrático Grupo RBS se dá o direito tanto de (i) eliminar expressões originais das manifestações que publica em sua versão impressa quando elas não convêm a suas preferências ideológicas quanto de (ii) publicar somente aquilo que convém aos seus interesses e que reflete a leitura política daquela determinada parcela da sociedade da qual ZH não é senão o espelho.

E é esse último ponto que nos conduz às quatro (04) manifestações restantes:

Todas estas quatro (04), as de números 06, 12, 13 e 16, não acreditam na "ajuda" federal e se referem ao governo do Excelentíssimo Senhor Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva e ao Partido dos Trabalhadores (PT) ora como um partido "rancoroso", "revanchista" e cooptador, ora como "cobras" que usaram o RS para "tomar o poder central" e ora como um governo preocupado em "arrecadar cada vez mais para 'alimentar' as bases, as ONGs, os movimentos ditos sociais".

Bem, se as quatro declarações acima, somadas tanto (i) àquelas onze (11) que evocam o despreendimento libertário seletivo farrapo, ironizam a suposta ajuda federal ou apregoam o voluntarismo tecnicista a-ideológico liberal, quanto (ii) à eliminação de trechos originais de manifestações críticas ao governo de Yeda Crusius (PSDB), bem como à não publicação pura e simples de manifestações semelhantes, não nos dizem nada nem sobre o suposto caráter do Grupo RBS e nem quanto sobre suas preferências ideológicas, La Vieja não sabe mais o que poderia dizer algo a esse respeito.
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E é assim, ora invisibilizando ou pela omissão do contraditório ou pela caricaturização falaciosa, ora criminalizando ações político-partidárias ou demandas sociais, e supostamente respeitando a diversidade de opiniões na arena democrática, estratégia da qual tal espaço de debates oferecido por ZH é o exemplo e isca maior, que o Grupo RBS constrói sua hegemonia no imaginário coletivo guasca, seu espelhamento da realidade tal como ela naturalmente aparece e convém à determinada parcela da sociedade farrapa, aquilo que Eugênio Neves, em comentário a um recente texto de La Vieja, tão bem chamou de "construção do simbólico".

Ingrata luta é essa quando auto-intitulados representantes daquilo que no Brasil e no RS mal ou bem ainda pode ser chamado de esquerda, embora sobre isso hajam controvérsias nada desprezíveis, são meras peças deste jogo, tão bem jogado pelo Grupo RBS. Para cooptá-los, sem trocadilhos infames, basta lhes oferecer alguns minutos sob seus holofotes.

A eles, nessas horas, nada caberia tão bem quanto Shakespeare, uma singela homenagem que lhes faz La Vieja:

"Não tenho esporas com que ferir os flancos de minha intenção," afirma o astuto MacBeth, de olho no trono escocês de Duncan, "e minha única montaria é esta Ambição exagerada, desejosa de saltar por cima de si mesma, só para tropeçar do outro lado". E depois de tudo feito, mas enquanto ainda não estão os astutos em segurança, "necessário faz-se banharmos nossa honra nesses córregos de bajulação e fazermos de nossas faces máscaras para nossos corações, disfarçando-se assim o que eles são".

Ou alguém aí achava que La Vieja não teria nada mais importante para fazer do que ler a Zero Hora?

sábado, 15 de dezembro de 2007

Pacifismo preventivo

George Bush continua seu périplo pacifista.

Sua política de relações internacionais, depois de estreitar laços com o Afeganistão, com o Iraque e com o Irã, país recentemente absolvido informalmente das acusações da Casa Branca de produzir armas nucleares pelos próprios serviços de inteligência estadunidenses, agora se volta para o leste europeu e pode criar mais um foco de tensão internacional.

Washington tem planos "de instalar um sistema antimísseis na Polônia e na República Tcheca", segundo informa a Reuters, e isso a fim de supostamente defender a Europa de ataques de Estados "párias" como o Irã, aquele mesmo antes reiteradamente acusado equivocadamente pelos EUA nesses últimos 5 anos.

O chefe do Estado Maior da Rússia, general Yuri Baluyevsky, criticou duramente as pretensões pacifistas preventivas estadunidenses em uma recente entrevista coletiva. Talvez ao menos a Rússia tenha aprendido alguma lição com a recente estratégia de "guerra preventiva" dos EUA posta em prática no Iraque.

Baluyevsky, conforme a Reuters, teria afirmado que "O disparo de um foguete antimíssil da Polônia poderia ser considerado pelo sistema automático da Rússia como o lançamento de um míssil balístico, o que poderia provocar um ataque como resposta".

Esse contra-ataque russo através de mísseis balísticos intercontinentais seria uma resposta automática, é bom frisar.

O próximo passo da diplomacia estadunidense, ao que tudo indica, deve ser solicitar formalmente à Rússia o desligamento de seu sistema de resposta automática a invasões de seu espaço aéreo por mísseis balísticos.

Tudo, claro, em nome do pacifismo preventivo de George Bush.

La Vieja VIP

Comecemos hoje com um giro pela sociedade, ou ao menos pela vida de seus mais bem nascidos representantes.

Segundo a mais fashion coluna política farrapa de hoje, o Papai Noel ao lado se trata de José Fogaça (PMDB), alcaide porto-alegrense, que "apareceu
em meio ao show da cantora Isabela Fogaça, no Natal Luz, em Gramado". Rosane de Oliveira se refere ao "Um Natal em Família", já tratado aqui por La Vieja, que não é louca nem nada de ficar para trás de respeitáveis colunistas em matéria de notícias políticas realmente relevantes.



Pois o tal de "Um Natal em família" aconteceu na última quinta-feira, em Gramado. Segundo a concorrência de Rosane de Oliveira, "Acompanhada por sua banda e por um coro infantil vestido de anjinho, Isabela Fogaça apresentou ontem à noite na Rua Coberta, em Gramado, canções do seu CD 'Natal em Família'. Fazendo jus ao título do trabalho, durante o show a primeira-dama de Porto Alegre contou com a participação de suas filhas e do marido, o prefeito José Fogaça, também compositor".

Como se vê, a carreira artística de José Fogaça vai de vento em popa. Já sua administração, no entanto, "
empenhou este ano 14 milhões em publicidade (mais que o dobro do gasto em 2004, último ano do governo anterior)" e, ao mesmo tempo, "tem execução ZERO em dezenas e dezenas de projetos e atividades previstas no orçamento de 2007".

E sequer cuida das lajotas em frente ao Mercado Público.
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La Vieja, continuando seu giro social, não pôde deixar de flagrar a entrega da obra "Pássaro das Comunicações", de Caé Braga, pela direção do Grupo RBS, à Federasul, por ocasião da passagem de seus 80 anos.

Em almoço oferecido na sede da RBS, seu diretor-presidente, Nélson Sirotsky, "destacou a liderança e o prestígio da entidade perante o meio empresarial e a sociedade gaúcha".

A Federasul
, "Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul", congrega "230 associações empresariais, reunindo as forças econômicas e produtivas das comunidades do Estado". Em torno de "40 mil empresas, de todos os portes, participam desse sistema de representação. E nelas estão representados todos os setores da economia gaúcha: comércio, indústria, serviços e agricultura".

A Federasul, "Mantendo coerência histórica em sua atuação institucional, (...) se legitimou para defender os interesses do empresariado" (Os grifos são meus).
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Pois é. Embora A CUT represente centenas de sindicatos e de trabalhadores e o MST represente milhares de sem terra, e ambos também comemorem suas datas de fundação e tenham tanta liderança e prestígio perante os trabalhadores e a sociedade gaúcha quanto tem a Federasul perante o meio empresarial e essa mesma sociedade gaúcha, jamais eles serão homenagedos com um almoço na sede da RBS, e isso por uma razão muito simples.

Uma das principais tarefas da mídia no modo de produção capitalista é o escamoteamento da luta de classes, ou bem pela invisibilidade, ou bem pela criminalização de reivindicações e de movimentos sociais marginalizados.

A estratégia da invisibilidade é utilizada quando, por exemplo, ou bem simplesmente não se discute determinada questão, como no caso dos problemas da concentração fundiária e da exploração da mão-de-obra na metade sul do estado, ou bem dela se trata de modo falaciosamente caricatural, como no recente caso da 12ª Marcha do Sem, realizada há pouco em Porto Alegre e tratada pela Zero Hora como um mero "problema de trânsito". Assim, através de tal estratégia, tanto se esvazia o debate público em torno das demandas de tais movimentos sociais quanto se escamoteia o conflito de classes e de interesses por trás de tais legítimas e justas reivindicações.

A estratégia da criminalização de reivindicações e de movimentos sociais marginalizados é bem menos sutil e elaborada do que a da invisibilidade, porém nem por isso menos eficiente. Ainda ontem, por exemplo, a Zero Hora tratava a questão agrária como um caso de polícia ao associar diretamente um suposto ato criminoso, que se tratava ainda de uma possibilidade, a integrantes de um acampamento do MST localizado a poucos metros de uma área de lavoura de milho supostamente incendiada na fazenda Coqueiros, em Coqueiros do Sul, no norte do RS. A estratégia da criminalização, além de esvaziar o debate público e escamotear o conflito de classes, pois a questão agrária não se trata mais de legítima e justa reivindicação social, mas sim de crime contra a ordem pública, também funciona como uma espécie de falácia preventiva, pois a tendência de um leitor mais sujeito a manipulações é tomar a discussão em torno da questão agrária em si mesma já como uma afronta a chavões como "sacralidade do direito à propriedade privada" e "estado democrático de direito", por exemplo.

Não é à toa, então, que o Grupo RBS simultaneamente invisibiliza ou criminaliza reivindicações sociais organizadas e premia entidades como a Federasul. Não basta simplesmente invisibilizar ou criminalizar os elementos que não enquadram na ordem vigente, no status quo. Também é preciso apontar para aqueles que mais bem representam tal ordem. São esses que constituem "a sociedade" perante a qual a RBS destacou a liderança e o prestígio da Federasul. Os bem nascidos, os vencedores, aos quais é preciso seguir o exemplo de vida como forma de se integrar adeqüadamente à sociedade. O resto, pedreiros, empregados domésticos, moradores da periferia, torneiros mecânicos, bancários, sem terra, desempregados, negros, portadores de necessidades especiais, profissionais do sexo, homoafetivos, travestis e todos aqueles que não freqüentam a calçada da fama e o Leopoldina Juvenil, são meros coadjuvantes da história, losers que se encontram diante do inefável beco sem saída da história: ou bem aderem incondicionalmente ao efêmero, mas tentador brilho dos holofotes da sociedade, ou bem nele desaparecem, invisíveis ou criminalizados.

A estratégia de premiar líderes e vencedores também é, ao fim e ao cabo, ela mesma uma estratégia de legitimação. Veículos da mídia reconhecem líderes e vencedores da sociedade que espelham e líderes e vencedores enxergam seus reflexos nas páginas de tais publicações. É assim que "a sociedade", assim mesmo entre aspas e em itálico, mantém sua coesão e sua dominação.

Mas isso, claro, é absolutamente a-ideológico.

(O Retrato no qual José Fogaça aparece emborboletado é de Edison Vara, da Pressphoto)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Sobre subjetividades

O engraçado é que quando alguém hostiliza ou criminaliza a mídia oligárquica tupiniquim e os interesses que ela representa não lhe faltam censores, em geral ancorados em falaciosos discursos sobre a liberdade de expressão. Tal é o caso do episódio envolvendo Roberto Requião (PMDB), governador do Paraná, recentemente revelado pelo Dialógico.

O estranho é que quando um veículo dessa mesma mídia oligárquica, interessada mais em verbas publicitárias do que em revelar a verdade por trás de questões sociais, faz associações diretas entre atos criminosos e movimentos sociais, não aparece ninguém não para lhe censurar, mas para, no mínimo, lhe exigir retratação.

Tal é o caso do jornaleco da Azenha de hoje:

"Questão agrária

Área de lavoura de milho é queimada em Coqueiros
Possibilidade de o incêndio na área ter sido criminoso está sendo investigada pela Polícia Civil

Cerca de 25 hectares de uma lavoura de milho foram queimados na Fazenda Coqueiros, em Coqueiros do Sul, no norte do Estado. O caso foi registrado na delegacia da Polícia Civil de Carazinho, que está investigando a possibilidade de o incêndio ter sido criminoso.

A área queimada foi descoberta na manhã de terça-feira por um funcionário da propriedade rural, que disse ter recebido uma ligação avisando sobre a ação. O fogo começou nas palhas usadas para o plantio direto e destruiu totalmente os pés que estavam em fase de formação. No mês passado, parte de uma plantação de milho já havia sido incendiada próximo ao foco desta queimada.

- Nós tivemos um prejuízo de mais de R$ 100 mil com este estrago - afirma Henrique Guerra, um dos proprietários da fazenda".

Agora, muito embora o suposto ato criminoso ainda se trate apenas de uma possibilidade, percebam só a sutileza entre as associações subjetivas de Zero Hora, um absoluto desrespeito ao princípio de presunção da inocência (Constituição Federal, Art. , inciso LVII), segundo o qual
"ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória":

"A lavoura incendiada está localizada a pouco mais de 500 metros de um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Nos últimos anos, a propriedade é visada pelo MST, que busca a desapropriação para assentamento de famílias acampadas no Estado. A Fazenda Coqueiros já foi invadida oito vezes pelo movimento" (Os grifos são meus).

Embora o jornaleco da Azenha termine a referida matéria ouvindo o outro lado, dando voz aos sem, aos desfavorecidos, eufemismo barato para aquilo que a mídia oligárquica entende como respeito à diversidade de opiniões em uma democracia, mera apropriação subjetiva e distorcida de nosso direito à informação, trata-se apenas de jogo de cena. É assim, supostamente efetivamente ouvindo o outro lado, que ela faz de conta que e respeita um natural equilíbrio no jogo democrático, do qual ela é o mais bem acabado exemplo, bem como seu porta-voz, quase ungido pela deusa democracia:


"De acordo com Gustavo Martins, um dos coordenadores do acampamento dos sem-terra, eles não teriam motivo para fazer um ato como este e nega a participação de qualquer integrante do MST".
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Isso se chama legitimação, junto à dita opinião pública, tanto de sua suposta credibilidade quanto de seu suposto respeito ao conjunto de diversas opiniões de classe que efetivamente lhe formam, muito embora não seja interessante se revelar isso, pois mais convém que não haja senão uma opinião pública, na qual tudo naturalmente se dilui. E também é assim, por intermédio de tal aparência de democracia e de respeito às regras do jogo, que tal mídia simultaneamente legitima idéias, expectativas e crenças irrefletidas de determinada parcela desta dita opinião pública, coincidentemente daquela que pensa como ela, da qual ela não é, no final das contas, senão um espelho. E não é senão tal opinião pública, ao fim e ao cabo, que a mídia oligárquica de fato respeita.

Mas isso é proibido proibir.


Sobre motivos para orgulho

O deputado estadual Mano Changes (PP) propôs, e foi atendido em sua demanda por seus pares, através do Projeto de Lei 133/2007, a criação do "Dia do Orgulho Periférico no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul", sancionado pela governadora Yeda Crusius (PSDB) em setembro último.

Agora, anualmente, em todo 14 de agosto, a comunidade periférica gaúcha já tem o que comemorar, pois foi instituído o seu dia, o "Dia Estadual do Orgulho Periférico". Como se sabe, povo que não tem virtudes acaba por ser escravo.

Vejamos mais detalhadamente a justificativa de tal projeto, apresentada por um legítimo representante da cultura hip-hop:

A inclusão social, segundo o Nobre MC, "é o mais forte argumento para a instituição do Dia do Orgulho Periférico no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul", dia "que visa chamar a atenção para as comunidades estabelecidas em zonas periféricas das cidades".

O 14 de agosto foi escolhido para ser instituído como o Dia Estadual do Orgulho Periférico em função de "ser o Dia da Unidade Humana, uma boa oportunidade de congraçamento e homenagem a população que vive na periferia das cidades e que além de merecer, tem o direito de pertencer a sociedade em geral".

"Como sabemos", continua Mano Changes, "é difícil para alguns segmentos sociais privilegiados, ver o que realmente ocorre na periferia. As informações que chegam são apenas de tragédias e o centro da pirâmide social esquece a população periférica. Poucos acreditam que uma bordadeira, de grande habilidade, possa ter orgulho do que faz, mesmo ganhando pouco. Existem marceneiros que amam a madeira e não almejam apresentar-se em feiras, show-rooms, concursos e notícias de jornal".

"Longe do centro ou dos bairros de elite", aprofunda Mano Changes, "não existem somente jovens drogados, marginais, delinqüentes, famílias desagregadas, mas pessoas que estão longe do alto da pirâmide social. Alguns meninos da periferia viram Beatles, mas a maioria segue tocando nas garagens, o que não lhes tira o talento. Também no subúrbio existe reação e público e, mais do que isso, pessoas que vivem e que gostariam de ser reconhecidas".

"Quem faz parte da chamada elite", finaliza Changes, "não conhece o que se pasa na vila, mas na periferia a vida também acontece. A balada, a pelada, a corrida, o colar que a vizinha faz, a música que o cara da frente toca. Este é um mundo que está bem próximo da gente mas que não se vê, e que tem o seu orgulho, que tem que ser mostrado. São pessoas que vivem e são felizes, mesmo que, na maioria das vezes isso esteja muito longe de sair no jornal. Por isso, é importante que a sociedade pare um dia para conhecer as periferias, os profissionais que ali trabalham, a vida que levam e o que fazem. Por isso, estamos instituindo o 'Dia Estadual do Orgulho Periférico'" (Todos os grifos acima foram de La Vieja).
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Buenas, todos já conheciam a dedicação de Mano Changes às causas públicas antes de sua eleição para a Assembléia gaúcha, no ano passado. Seu trabalho em prol das comunidades periféricas sempre teve forte inserção social, sendo inclusive referência teórica e prática para grêmios estudantis como os dos colégios Rosário, Anchieta, Bom Conselho e Farroupilha, principalmente quando tais grêmios realizavam suas formaturas de final de ano, que hoje em dia o pessoal que conclui o ensino médio, antigo segundo grau, também se forma com pompa e circunstância. Eram trabalhos sociais que entravam madrugada adentro, tamanha a preocupação social.

Bem, mas La Vieja falava do trabalho social de Mano Changes antes de sua eleição. Também foi referência, tanto para membros da elite quanto para comunidades periféricas, seu engajado trabalho no Planeta Atlântida, evento social anualmente realizado pelo Grupo RBS. Que de cidadania, todos sabem, a RBS entende.

Bem, como é difícil para alguns segmentos sociais privilegiados ver o que se passa na periferia, Mano Changes mandava seu recado social tanto nos eventos realizados pelos referidos grêmios quanto no evento patrocinado pelo Grupo RBS. Era fundamental mostrar a tais segmentos que longe do centro ou dos bairros de elite não existem somente drogados, marginais, delinqüentes e famílias desagregadas, pois quem faz parte de tal elite, e Mano Changes absolutamente não faz parte de tal elite, não sabe o que realmente se passa nas vilas. Daí a importância, hoje tansformada em lei, de se parar um dia, La Vieja disse um dia, para se conhecer a periferia, este exótico local distante do centro e dos bairros de elite que tanto precisava de nosso reconhecimento, da sociedade branca, limpinha e judaico-cristã, e de uma lei para sentir orgulho do que é e do que faz. Agora, mas só agora, os moradores da periferia de todas as cidades gaúchas realmente têm do que se orgulhar, pois enquanto a sociedade, através de seus representantes, não lhe concedeu um dia específico para sua altivez, não havia motivo suficiente para isso.
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Porém, quem pensava que o trabalho de politização em busca da autonomia de Mano Changes parava por aí, mordeu sua venenosa língua. Eram seus versos, bem mais do que seu trabalho pela inclusão social antes de sua eleição, sua poderosa ferramenta de conscientização e de luta. Só eles são capazes de realmente mostrar o alcance de suas preocupações sociais e de seu engajamento, responsáveis diretos por sua eleição para a politizada Assembléia farrapa.

Então vejamos mais detalhadamente, por ocasião de sua eleição para o parlamento gaúcho ainda no ano passado, uma despretensiosa análise de sua poesia, modestamente realizada à época por La Vieja, que já de antemão se desculpa por não ombrear intelectualmente com tal obra, não estando, deste modo, à altura de sua análise.

"Bem, mas se ventos liberais nos trazem Paulo Borges, Mano Changes, deputado estadual eleito pelo PP com 42 mil votos, vem nos braços de Homero nos trazendo a poesia em sua forma mais pura.

É brilhante sua análise das relações internacionais entre Brasil e Colômbia, em 'Amazônia X Colômbia': 'Ah! eu só vim prá buscar um carregamento e depois me mandar/Ah! como é boa a fronteira Amazônia e Colômbia que eu vou atravessar!!', e não menos notável sua análise das relações sociais estabelecidas entre adolescentes em 'Ah, Eu tô sem erva!', o que pode inspirar políticas sociais para tal setor: 'A seca tá braba não consigo uma bagana/A gatinha me disse que só sai comigo/Se eu tiver um baseado pra botar pro seu primo/O cara é cabeça, a mina também/Descolando uma erva eu vou me dar bem/Chapando o cara vai ficar liberado/Vou matar a princesa num lugar embanderado'.

O que dizer, então, de sua sensibilidade social para com as lutas por inclusão social dos negros e de grupos estigmatizados, como podemos comprovar em 'Marrequinha': 'Pobre negrinha arrideira Sentadinha no cupim/Pobre negrinha arrideira Sentadinha no cupim/ Come bosta de ovelha Pensando que é amendoim' e 'Marrequinha da lagoa Bate as asa e não afunda/Marrequinha da lagoa Bate as asa e não afunda/Eu gosto de mulher gorda Porque tem graxa na bunda'?.

Suas melhores idéias, porém, florescem não de sua poesia social, brevemente ilustrada acima, mas sim quando seu talento se encontra com a arte pela arte, tal como quando nos transmite toda sua verve em 'Arrastão do Amor' através de profundos versos sobre as relações conjugais ('se a sua cabeça não passa pela por/troque sua mulher que ninguém se importa'), a feminilidade ('olha ali que coisinha que é aquela menininha/se não é virgem do umbigo deve ser da orelinha') e o amor em todo seu esplendor ('vem, meu amor/vê se não olha pra ninguém/porque agora eu quero só fazer neném/meu amor, como você não tem igual/vem pra cá e senta aqui bem no meu...')
".
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Como se vê, não só a periferia, mas toda a sociedade gaúcha, nunca esteve tão bem representada em suas reivindicações sociais no parlamento gaúcho. Estamos diante de um legítimo lutador social. Isso sim é que é motivo para orgulho.

La Vieja até não afasta a possibilidade do rapaz ser bem intencionado. O que não dá para se achar é que o analfabetismo político um dia não cobra sua fatura. Neste caso, não bastam as boas intenções.

(No retrato, o Nobre MC Mano Changes. Essa postagem é uma homenagem ao Zé Alfredo, um dos oito fiéis leitores aos quais La Vieja se referia anteriormente. É sempre bom contar com tua atenta leitura e com tuas críticas, Zé)


quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Paco de Lucía



Paco de Lucía interpreta, com a Orquestra de Cadaqués, dirigida pelo maestro Edmon Colomer, o Adagio do Concierto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo Vidre (1901-1999).

Para quem não agüenta mais os Fagundes.

Patrocínio desinteressado

A impressão transmitida pelas sucessivas conferências intermediadas pelos EUA a fim de retomar a discussão sobre o processo de paz entre judeus e palestinos é a de que tudo não passa de um jogo de cena, seja para que a Casa Branca não perca seu papel de destaque no cenário internacional, seja para que Israel transmita à comunidade internacional a falsa mensagem de que abrirá mão de suas pretensões políticas na região.

Hoje ocorre o relançamento das negociações entre os dois povos, uma "consequência da retomada do processo de paz, há duas semanas, na conferência de Annapolis (EUA)".

Mas, ainda na segunda-feira, 10, em encontro preparatório à tal evento,
que hoje reunirá os representantes do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e do primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, o negociador palestino Ahmed Qurie
insistiu junto à chanceler israelense, Tzipi Livni, "que Israel honre a promessa, renovada em Annapolis, de não ampliar assentamentos", exigindo também "o cancelamento de uma licitação para a construção de 307 imóveis em um assentamento já existente, anunciada poucos dias depois da conferência".

Qurie se refere
ao assentamento de Abu Ghneim (Har Homa para os israelenses), "que fica perto de Jerusalém, numa parte da Cisjordânia que Israel anexou depois da ocupação de 1967". O início da construção do referido assentamento, ainda em 1997, "desencadeou um dos colapsos do processo de paz da região", segundo informa a Reuteurs.


Um porta-voz da chanceler israelense, no entanto, reiterou a posição de Israel de que o referido assentamento "está fora das restrições previstas no plano de paz de 2003, por se tratar de território anexado a Israel".

O que tal porta-voz não disse foi que a "
anexação de Jerusalém Oriental e de terrenos adjacentes da Cisjordânia" depois da ocupação israelense de 1967 "não é reconhecida internacionalmente, e os palestinos vêem as obras no local, um pouco ao norte de Belém, como parte de um plano para dividir a Cisjordânia e isolar a parte árabe de Jerusalém, que os palestinos reivindicam como futura capital", conforme a Reuters.
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Segundo informa O Globo Online, as negociações de hoje, coordenadas pela m
inistra das Relações Exteriores de Israel, Tzipi Livni, e pelo ex-primeiro-ministro palestino Ahmed Qurie,
duraram cerca de 90 minutos e foram marcadas pela pressão dos líderes palestinos pelo congelamento das obras de expansão do referido assentamento, projeto judeu que, ainda segundo O Globo, teria sido criticado pelos EUA.

"
As equipes formadas por israelenses e palestinos reuniram-se para realizar as primeiras negociações formais de paz em sete anos como parte de esforços dos EUA para que um acordo seja selado antes do final do mandato do presidente norte-americano, George W. Bush", ainda segundo O Globo..

George Bush até pode realmente se interessar pela paz no Oriente Médio, mas bem que ela ficaria muito melhor sob seus auspícios...

Sobre regras, decretos e variáveis, segundo um certo ponto de vista

O porta-voz oficial dos interesses patronais de hoje dá voz à Elizabeth de Carvalhaes, presidente da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa).

Para Elizabeth,
"a falta de regras claras e a tomada de decisões por meio de decretos, que mudam de uma hora para outra as variáveis envolvidas na escolha de uma área de instalação, ameaçam a concretização de projetos como os que a Aracruz, Stora Enso e Votorantim Celulose e Papel (VCP) têm para a Metade Sul gaúcha. Outro foco de estresse, disse, são o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), os quilombolas e os povos indígenas", segundo o jornaleco da Azenha (Os grifos são de La Vieja).

Caramba. É possível tal falação distorcer mais a verdade?

Em primeiro lugar, nunca faltaram regras claras de licenciamento ambiental para a silvicultura extensiva aqui no RS. Os resultados do estudo de Zoneamento Ambiental para a atividade de Silvicultura no RS, iniciado ainda no governo de Germano Rigotto, o Meigo (2003-2006), estão à disposição de Elisabeth e das empresas que ela representa no sítio da Fepam (
Fundação Estadual de Proteção Ambiental) já há um bom tempo. O que Elisabeth esqueceu de dizer ao jornaleco foi que tais regras não estavam suficientemente claras para os interesses das empresas que ela representa, tanto que somente em função disso, e a fim de atender tais interesses, foi que os novos jeitos de governar transferiram, da Fepam para a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA), um órgão de governo sob controle e longe dos olhos do Conselho Estadual de Meio Ambiente (CONSEMA), atribuições antes exclusivas da referida Fundação.

Para conferir, basta se acessar o sítio da Fepam, aqui. Ver-se-á, então, que as resoluções do CONSEMA foram transferidas para o sítio da SEMA. Entre tais resoluções encontraremos, por exemplo, a que "
Dispõe sobre a qualificação dos Municípios para o exercício da competência do Licenciamento Ambiental dos empreendimentos e atividades considerados como impacto local, no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul" (167/2007) e a que "Altera a Resolução CONSEMA nº 102, de 24 de maio de 2005, que 'Dispõe sobre os critérios para o exercício do Licenciamento Ambiental Municipal, no âmbito do Rio Grande do Sul' e dá outras providências" (168/2007), bem como inúmeras que habilitam "Municípios para realização do Licenciamento Ambiental das Atividades de Impacto Local", uma das estratégias encontradas pelo novo jeito de governar a fim de flexibilizar a interpretação e a aplicação das regras do referido zoneamento.

Ou seja, as regras sempre foram claras. O que houve foi que nem o novo jeito de governar atual e nem as papeleiras gostaram das referidas regras, estabelecidas a partir dos resultados do estudo de Zoneamento Ambiental para a Atividade de Silvicultura no RS realizado pela Fepam, estudo esse realizado por técnicos competentes que deixaram claro que, ao contrário do que afirmou Elizabeth, não mudariam "de uma hora para outra as variáveis envolvidas na escolha de uma área de instalação".

E foi somente por isso, e por nenhum outro motivo, que decisões foram tomadas por meio de decretos, como afirmou Elizabeth de Carvalhaes. Ou seja, a Bracelpa está reclamando de barriga cheia, pois as únicas decisões tomadas por meio de decreto aqui no RS assim o foram com o único objetivo de beneficiar a atividade de silvicultura, eufemismo para fabricantes de celulose e papel, e não para prejudicá-la. Foi por tal motivo, e por nenhum outro, que a Rainha das Pantalhas passou por cima das atribuições da Fepam e do CONSEMA, concentrando todo o poder de decisão sobre a atividade de silvicultura no RS sob a SEMA.
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Era só o que faltava. Uns caras que estão gastando uma grana preta com lobbies comunitários e parlamentares, finaciamentos de campanhas, convescotes sociais e assemelhados agora se fazendo de vítimas das circunstâncias. Pois que outro motivo, senão a aprovação popular, levaria a Aracruz e a Votorantim Celulose e Papel a financiarem a viagem de Lucia Ritzel, jornalista de Zero Hora, até São Paulo, a fim de escrever tal matéria?

E tem outra coisa que precisa ficar clara, pois se trata de uma falácia absurda. A Aracruz, a Stora Enso e a Votorantim Celulose e Papel não têm projeto nenhum para a metade sul gaúcha, mas sim para si próprias. Empresas, como todo e qualquer almofadinha com MBA sabe, só têm projetos para si mesmas, pois seu objetivo final é o lucro, e não os interesses das comunidades das quais exploram os recursos naturais. Então vamos parar com esta palhaçada de projetos para a metade-sul do RS e assumirmos os reais interesses comerciais em jogo, que são os das referidas papeleiras. Tais empresas não podem partir do princípio que serão capazes de converter ao seu dialeto falacioso todas as pessoas que aqui no RS se dispuserem a discutir seus interesses, e nem que todos os cidadãos gaúchos são empregados da Zero Hora, para os quais basta se pagar uma passagem até São Paulo a fim de se obter uma matéria.

Elizabeth não poderia ter encerrado de maneira mais falaciosa sua argumentação:


"- Os escandinavos deixaram de investir em seus países para investir no Brasil. Então, é nosso papel assegurar esses projetos - disse Elizabeth".

Ora, até um jornalista da Zero Hora já sabe que está esgotada a capacidade de expansão territorial das papeleiras na escandinávia, e somente por isso, além dos preços da terra e da mão-de-obra, eles estão aqui, para não mencionar a peculiar simpatia que alguns novos jeitos de governar lhes devotam por conta do afrouxamento da legislação ambiental. E o fato dos escandinavos terem deixado "de investir em seus países para investir no Brasil" não é condição suficiente, e sequer necessária, para que seja "nosso papel assegurar esses projetos", pois mais essencial do que empresas multinacionais terem deixado de expandir suas matrizes seja lá por qual motivo é saber se realmente é do interesse e importante para o RS assegurá-los. Tais projetos é que precisam se submeter ao nosso crivo, e não o contrário. Eles é que podem não ser bons o suficiente para nossos interesses de desenvolvimento.

E o que dizer sobre quem trata legítimos movimentos sociais brasileiros, bem como povos indígenas nativos, como focos de estresse para seus interesses comerciais? Que governo, e que mídia, seria tão capacho a ponto de aceitar que se fale assim de movimentos sociais de seu povo?

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Sobre patrões

Imperdível, no Diário Gauche, a pergunta

E agora, José Agá?


Muito bem, José Agá, o diário do grupo RBS, fez nos últimos dias uma radiografia dos sindicatos de empregados cujos dirigentes prevaricam e/ou se perpetuam no poder de suas entidades classistas. Muito bem. Aguarda-se, agora, que José Agá, faça a mesma radiografia no chamado Sistema S (Sebrae, Senac, Senai e Sesc), mantido com verbas estatais e das entidades patronais. Mais: pode aproveitar e passar um pente-fino também nos sindicatos patronais, federações e confederações de defesa dos interesses dos empregadores.

Os desvios encontrados nos sindicatos de empregados são lilliputianos, perto dos desvios gulliverianos dos patronais.

Aguardamos impacientes.
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O jornaleco da Azenha, destemido quando se trata de lidar com trabalhadores assalaridos, também deve aos interesses da mesma sociedade que diz representar explicações sobre como vivem, trabalham e administram o dinheiro das entidades às quais representam todos os dirigentes patronais. Uma devassa precisa ser feita, como bem destacou Cristóvão Feil. Se eles se apropriam de nosso direito à informação, têm o dever de o fazer de modo adeqüado.

Carlos Rivaci Sperotto, por exemplo, é presidente da Farsul desde 1997, e seu mandato atual vai até 2009.

Serão 12 anos, portanto. Um pecado, segundo a Zero Hora, pelo menos quando se trata de um sindicato que não anuncia nas páginas de ZH.

Argúcia estratégica, o retorno

E não é que veio muito bem a calhar a mãozinha que o jornaleco da Azenha de hoje esta dando para a elite guasca?

A partir de hoje, graças à mãozinha do Grupo RBS, La Vieja dará início a uma série de resgate de antigas suas postagens, publicadas ainda no antigo, porém atual, boa noite pro porco, como se sabe uma referência teórica para assuntos aleatórios envolvendo mídia e elite guasca, pelo menos segundo os oito leitores que andavam sentindo falta do inegociável sarcasmo de La Vieja. Ainda bem que eles não decidiram votar, pois correríamos o risco de ver a questão empatada.

Bem, mas deixemos de lado os pormenores, que a conversa de hoje é longa.

Trata-se da notícia de hoje sobre os desdobramentos da famigerada Agenda Estratégica do RS 2006/2020: O Rio Grande que Queremos.

A Zero Hora só continua insistindo em manter oculto o sujeito da referida "agenda", que a eficiência privada liberal adora uma agenda.

Abaixo, a íntegra de tal notícia:

"Agenda 2020 deve sair do papel em 2008

Se até agora os trabalhos da Agenda 2020 ficaram especialmente na esfera de debates e projetos, 2008 será o ano em que propostas para desenvolvimento do Rio Grande do Sul começarão a sair do papel.

A aposta é de Ronald Krummenauer, diretor executivo da Pólo RS, organização não-governamental que coordena os trabalhos desenvolvidos por voluntários para levar à implantação de ações.
Na manhã de hoje, na sede da Federação das Indústrias do Estado, em Porto Alegre, as equipes de consultores voluntários apresentarão um balanço dos trabalhos de 2007. De 40 propostas consideradas prioritárias no final do ano passado, 24 viraram projetos. A intenção é de que no ano que vem, enquanto se fazem novos projetos, os já elaborados virem ações a serem acompanhadas pela Agenda 2020. Alguns inclusive começam a ser implantados até o final do ano. É o caso da realização do mapa social de nove regiões do Estado - o levantamento no Litoral deve começar ainda em 2007.

Os projetos desenvolvidos abrangem as áreas de inovação e tecnologia, regulação, responsabilidade social, desenvolvimento de mercado, desenvolvimento regional, educação e infra-estrutura. Nessa última categoria, estão os mais palpáveis. Entre os quais, a modernização da Junta Comercial do Estado e do Porto de Rio Grande, a ampliação da pista do Aeroporto Salgado Filho e a solução dos congestionamentos na BR-116, entre Porto Alegre e Novo Hamburgo. A adesão dos governos e entidades privadas é fundamental.

- Mas nós não estamos só apontando o que é preciso, estamos nos propondo a ajudar para que as coisas aconteçam - diz Krummenauer
".

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Agora, a tradução disso tudo para o bom e velho português, pelo qual a Zero Hora parece ter certa aversão (entre [colchetes] e em itálico azul irão esclarecimentos que tornarão o texto compreensível hoje, já que ele foi publicado originalmente no ano passado, e enlaces que não mais funcionam, não mais funcionam):

"Argúcia estratégica II, a missão

Ontem [10 de outubro de 2006], no teatro do SESI, em Porto Alegre, as entidades patronais Fiergs, Federasul, Farsul, Fecomércio e FCDL apresentaram a Olívio Dutra (Frente Popular) e Yeda Crusius (PSDB-PFL-PPS, ou Frente Liberal, como preferirem) as propostas que consideram convenientes para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul nos próximos 15 anos, primeira etapa do projeto denominado Agenda Estratégica RS 2006/2020.

Trata-se de um documento que resume em 20 itens ditos fundamentais o resultado do referido trabalho e as diretrizes que orientam as 90 propostas para o desenvolvimento do RS nos próximos 15 anos também apresentadas, propostas essas que contemplam 11 áreas estratégicas e que foram elaboradas a partir da significativa e representativa interação de aproximadamente 6 mil pessoas.

A Agenda Estratégica, para quem não lembra, foi uma espécie de contraponto patronal, ainda em 2005, ao malfadado Pacto pelo Rio Grande, de iniciativa da Assembléia Legislativa. Ou o Pacto foi um contraponto à Agenda, o que no final das contas daria no mesmo, uma vez que aquilo que um não tem de oportunismo político o outro tem de insofismável interesse de classe.

Bem, chega de espichar conversa. O caso é que, ainda em 2005, as entidades empresariais do RS impressionaram-se muito com a Basic Score Card (BSC), espécie de ferramenta de planejamento e gestão de longo prazo desenvolvida pela Universidade de Harvard, nos EUA, utilizada por grandes empresas privadas e por uma, eu disse uma, cidade estadunidense, que vem a ser o município de Charlotte, na Carolina do Norte. Tais entidades, então, preocupadas com o peão de estância que vive quase de sobras nas fazendas de Bagé, contrataram a consultoria paulista Symntetics, detentora do direito de uso da referida ferramenta harvardiana na América Latina, e a Pólo RSAgência de desenvolvimento, de Anton Karl Biedermann, que encarregar-se-ia da viabilização, logística e execução da referida Agenda. O empresário em questão destacou o ineditismo da aplicação de tal ferramenta no RS pela Agenda, pela primeira vez testada em grandes dimensões, o que desde já deixa duas coisas muito claras: que é o RS cenário de testes para a experimentação de teorias acadêmicas alienígenas que trabalham com simulações de ambientes empresariais, o que passa ao largo dos interesses públicos, e que a aclamada representatividade do consenso popular em torno das referidas 90 propostas apresentadas é uma piada, uma vez que as seis mil almas envolvidas em tal consulta representam 0,05 da população de 10.8 milhões de gaúchos.

Bem, continuando. Ainda em março desse ano [2006], em uma noite que ficará marcada para sempre em nossas memórias, quase 800 privilegiados cérebros lotaram o centro de eventos da Fiergs no seminário "Visão de Futuro", primeira reunião da Agenda. Muitos e incansáveis encontros depois, generosas doses de whisky 18 anos, 22 fóruns temáticos e democráticas reuniões com a participação popular total de 6 mil gaúchos, muito provavelmente os familiares dos membros das entidades patronais que patrocinam tal Agenda, mais o jornalismo-colunismo social que lhes lambe as botas, escolheu-se, por votação direta, as 90 redentoras propostas que integram a primeira fase da Agenda Estratégica RS 2006/2020.

Com pompa e circunstância os frutos desse trabalho honesto foram ontem entregues a Olívio Dutra e Yeda Crusius, com direito aos chavões de praxe. Dois jovens, inocentes úteis simbolizando o futuro, fizeram a entrega do referido documento, evidentemente sob as graças e auspícios de nosso glorioso hino. Representantes dos 350 especialistas que participaram dos fóruns temáticos da Agenda apresentaram os 20 pontos que resumem suas 90 propostas, que contemplam 11 áreas estratégicas: Educação, Saúde, Meio-ambiente, Infra-estrutura, Gestão pública e cidadania, Responsabilidade social, Desenvolvimento de mercado, Desenvolvimento regional, Disponibilidade de recursos financeiros, Ambiente institucional e regulatório e Inovação tecnológica.

Segundo o Correio do Povo, 'A apresentação não destacou, porém, os pontos polêmicos da proposta, como o que inclui a possibilidade de retirada do governo de serviços de mercado - como Banrisul, CEEE ou Corsan -, também chamado de publicização de serviços não exclusivos do Estado'. A esse propósito é fundamental consultar a série Privataria e seus disfarces I, 2 e 3, de Cristóvão Feil. Ainda segundo o Correio, 'Ao ser questionado se o primeiro documento da Agenda Estratégica apresenta tendência pró-privatização, o presidente da Fiergs, Paulo Tigre, voltou a tratar sobre a importância da publicização dos serviços públicos'.

Olívio Dutra valorizou o esforço do setor empresarial, mas tratou logo de apontar seus pontos polêmicos, entre os quais o referido projeto de publicização de serviços não-exclusivos do Estado, eufemismo para privatização. Yeda Crusius, por sua vez, antes de ausentar-se da cerimônia em função de compromissos políticos em Brasília, escancarou sua adesão à referida Agenda ao afirmar que participou do referido projeto desde seu lançamento e que 'Temos que apoiar trabalhos inovadores que prevêem um Rio Grande do Sul melhor a longo prazo', segundo o Correio do Povo.

Bem, passemos agora ao documento.

Os 20 pontos que resumem as intenções da Agenda e as diretrizes das 90 propostas desta sua primeira fase, do ponto de vista formal, são exemplos da mais pura retórica generalista do marketing administrativo, dialeto de 11 entre 10 almofadinhas com MBA. O conteúdo do qual eles tratam, à exceção dos pontos que claramente são de interesse empresarial, se resume a expectativas sociais em geral contempladas genericamente em todo e qualquer projeto partidário de governo minimamente razoável, tais como 'Mais energia, melhores estradas, portos modernos', 'Educação de qualidade para todos' e 'Mais investimento público em educação, saúde e segurança'. A argumentação apresentada em cada um destes 20 itens a favor de tais teses não ultrapassa os limites da mediocridade, superficialidade e da generalidade que a classe empresarial sempre atribuiu aos projetos de governo oferecidos por partidos políticos no RS, o que deixa transparecer de uma maneira muito clara as reais intenções de tal discurso: didaticamente camuflar, através de construções retóricas genéricas, a natureza essencialmente liberal do modelo de gestão privada do espaço público por eles apresentado.

Essas reais intenções ficam escancaradas quando se interpreta a íntegra das 90 propostas a serem implementadas a curto prazo pela referida Agenda, caso algum governo com elas se comprometa. Divididas em 11 estratégicas áreas, em geral a retórica adotada nessas 90 propostas também é a do ambiente empresarial. Pululam siglas, que empresários adoram siglas, de projetos inovadores, de modelos de gestão, de redes de cooperação empresarial, projetos de inteligência, estímulos à competitividade e à produtividade, capacitação empresarial e demais chavões do ramo. Todas as 11 áreas, por mais distantes que estejam entre si e mesmo que guardem peculiaridades que não se enquadrem em tal modelo empresarial de gestão pública, devem produzir, se comportar e respirar de acordo com tal retórica.

Mas algumas das propostas apresentadas nas áreas de Gestão pública, Infra-estrutura, Ambiente institucional e regulatório, Meio-ambiente e Educação, cinco das 11 áreas estratégicas contempladas por tais sugestões, são o retrato fiel do pensamento de tais entidades e dos compromissos de classe por elas assumidos, que em geral nada têm a ver com o interesse popular.

Na área de Gestão pública, o projeto intitulado Publicização de Serviços Não Exclusivos do Estado trata da migração, para entidades públicas de direito privado, de parte da gestão dos órgãos prestadores de serviços não exclusivos de Estado. A Uergs, o Banrisul, a CEEE e a Corsan, por exemplo, poderiam deixar de ser administradas diretamente pelo Estado, sendo entregues às referidas entidades públicas de direito privado.

A área de Ambiente institucional e regulatório traz três pérolas, uma que surpreende pela cara de pau, outra pelo obscurantismo, que inclusive contradiz a primeira, e outra, ainda, que clarifica o conceito de segurança pública da classe empresarial. A primeira delas é o projeto Programa de Ações Integradas da Segurança Pública, que objetiva 'trabalhar a questão da segurança de uma forma sistêmica, implementando planos de prevenção à violência e serviços de inteligência no combate à criminalidade'. Ora, como o eleitor petista, ao contrário do eleitorado liberal, não é desmemoriado, lembra perfeitamente que o agora alentado plano de ações integradas e a visão sistêmica da segurança pública fizeram parte do cotidiano do governo Olívio Dutra (1999-2002), governo contra o qual tal classe que agora se apropria do projeto da Frente Popular sempre se digladiou e hoje se digladia, levando-se em consideração o fato de que um de seus representantes, o atrapalhado Paulo Feijó, faz parte do projeto de governo financiado pela classe empresarial.
A sugestão que se caracteriza pelo obscurantismo é a da implementação do Projeto de Tolerância Zero em Segurança Pública, tese com nuances racistas importada de uma política de segurança implementada nos anos 90 em Nova Iorque por Rudolf Giuliani, sendo que sua contradição em relação ao projeto anterior reside no fato de que estratégias de prevenção à violência, no sentido amplo da expressão, não combinam com políticas de tolerância zero, uma vez que uma estimula a mera violência repressiva do agente policial e outra, por sua vez, trabalha com a prevenção da violência desde suas origens, que como sabemos são múltiplas.
A terceira delas, por fim, demonstra que o conceito de segurança pública com o qual trabalha tal classe é o da proteção da propriedade privada. Os projetos de Conscientização/Penalização Relativa à Pirataria e à Sonegação e de Conscientização (Educação) do Consumidor Relativa à Pirataria e à Sonegação, além de serem claramente professorais e arrogantes, tratam como caso de polícia uma situação que é um mero reflexo de problemas estruturais da economia. O engraçado disso tudo é que o público alvo que precisa ser salvo do comércio informal é aquela mesma plebe que, quando entra em um shopping center, tem seus passos vigiados do começo ao fim. Porem, não retiremos os méritos da idéia de se educar a população em relação à sonegação, assunto do qual setores de tal classe entendem muito bem.

Na área do Meio-ambiente, por sua vez, o projeto Novo Modelo de Gestão da Secretaria Estadual do Meio-Ambiente, que visa redesenhar e melhorar 'todos os processos correntes' da referida secretaria, nos deixa com uma pulga atrás da orelha. O que exatamente o setor empresarial quer dizer com redesenhar e melhorar todos os atuais projetos do setor? Talvez não mais investigar vazamentos como aquele que nessa semana mais uma vez condenaram o Rio dos Sinos? Ou quem sabe aprovar, sem discussão pública, os projetos de instalação das fábricas de celulose aqui no RS?

Na área de Educação a pérola fica por conta do Projeto de Educação Continuada, que buscará 'a valorização e a qualificação dos professores de instituições de educação, por meio de pós-graduação via educação à distância'. Eu até entendo que o setor empresarial tenha dificuldades intelectuais e realmente precise se qualificar com seus MBAs de araque através de cursos muitas vezes caça-níqueis, mas uma coisa é cuidar da própria vida e outra, bem diferente, é lidar com educação como responsabilidade pública. A educação e a qualificação de professores não pode se submeter à lógica de mercado. O Estado não tem a nada a ver com o fato de meia dúzia de empresários e de universidades empresárias terem vislumbrado um bom negócio através da idéia de educação à distância, principalmente quando se dispõe de uma das mais qualificadas redes de ensino superior do país, composta por universidades públicas e privadas e por centros universitários, universidades e faculdades com forte inserção comunitária. Seria absurdo desprezar tal potencial em nome de um negócio, em nome de uma visão mercantil e estreita da educação. Sem mencionar o fato de que tal projeto quer promover a valorização do profissional de educação sem sequer ter referido uma linha ao fato de que tal setor há anos carrega consigo o peso da defasagem salarial, obra de sucessivas políticas públicas claramente identificadas com o setor que hoje apresenta tal mágica solução para os problemas da educação.

Mas é a área de Infra-estrutura que nos reserva as maiores surpresas. Os empresários propõem seis projetos a serem implementados a curto prazo, a partir de 2006/2007, e 13 a serem discutidos a partir de 2008.

Os seis primeiros projetos podem ser divididos em duas grandes áreas, a de
transportes, que prevê os projetos Porto de Rio Grande, Aeroporto Salgado Filho e BR 116 Norte, e a de energia, que prevê os projetos Plano Estadual de Eficiência Energética, Projeto de Geração Térmica a Carvão e o Projeto de Suprimento de Gás Natural.

O que primeiramente salta aos olhos diante dos projetos apresentados é o fato de que os investimentos públicos necessários a sua viabilização se concentrariam (i) geograficamente basicamente no corredor litorâneo Porto Alegre-Rio Grande, região de escoamento da produção gaúcha que se destina à exportação, e (ii) no aumento na capacidade de produzir e distribuir energia, como todos sabemos fundamental para o setor empresarial industrial. Ou seja, os seis projetos contemplam basicamente o setor empresarial industrial exportador concentrado na região metropolitana e serrana, com respingos para o setor agroexportador.

A infra-estrutura necessária à produção, segundo a visão da Agenda, deve se concentrar em regiões e contemplar setores já tradicionais da economia gaúcha, aumentando o fosso, por exemplo, entre a pobre e cambalida metade sul e a privilegiada metade norte. Não há sequer uma linha sobre a necessidade de estímulo ao transporte ferroviário, a fim de baratear custos, sobre a necessidade de melhoria das estradas da região sul do Estado, a fim de se facilitar o escoamento da produção agrícola e pecuária, bem como as relações comerciais com o Mercosul, sobre a necessidade de se viabilizar fontes alternativas de energia ao pequeno e médio produtor rural da metade sul ou sobre a necessidade de se resolver o problema de abastecimento de água nessa mesma região. O problema de infra-estrutura a ser resolvido, na lógica empresarial gaúcha, é o de melhorar o fornecimento de energia a setores industriais tradicionais, para que eles possam produzir mais, e melhorar a infra-estrutura de transportes no entroncamento litorâneo Porto Alegre-Rio Grande, para que tal setor possa exportar mais. Simples assim.

Os 13 projetos a serem discutidos a partir de 2008 incrivelmente também não fogem dessa lógica. Todos giram em torno da infra-estrutura de transportes que privilegia o corredor exportador litorâneo, como por exemplo a Hidrovia Estrela-Rio Grande, e a produção e distribuição de energia, que no final das contas beneficia o setor industrial. Ou alguém por acaso está pensando que toda esta preocupação com fornecimento de energia tem a ver com a distribuição de luz lá no rancho daquela peão de estância no interior de Bagé? E todos, à exceção da BR 290 Uruguaiana, concentram-se na metade norte do Estado. Não há nenhum estímulo em tais projetos à criação de condições logísticas e de infra-estrutura que viabilizassem a industrialização da região sul do Estado, de acordo com suas potencialidades.

Mas tal charada, claro, é fácil de matar, uma vez que a Farsul está por trás de tal projeto. Convém, para o bem comum e para os interesses cristalizados, que cada um preserve sua vocação: o norte continua produzindo e exportando, concentrando capital cada vez mais nas mãos dos mesmos setores industriais, e o sul continua explorando mão-de-obra de mortos de fome em seus latifúndios, de acordo com a velha lógica que sempre orientou o setor produtivo burguês gaúcho. Ou alguém acha que não foi feita nenhuma menção à necessidade de se fazer uma reforma agrária na região sul ou aos pequenos e médios produtores rurais gratuitamente? Nenhuma referência foi feita a ambos porque a Farsul tem muito claro quais são seus interesses nessa jogada: preservar a concentração de renda na metade sul às custas do subdesenvolvimento regional. O que pensa o norte? Bem, quem se importa com os latifúndios, desde que se possa produzir com energia de sobra e transportar com facilidade?

Bueno, antes que alguém me chame de neurótico, adianto que não tenho nada contra o setor empresarial, mas muito contra a má-fé, principalmente quando ela se traveste de progressista e tenta impor sua visão de mundo. Também tenho muita coisa contra a estreiteza de uma inteligência que busca sua hegemonia supondo que há burrice suficiente além do eleitorado liberal para legitimá-la sem que suas contradições sejam escancaradas".

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La Vieja considera fundamental este processo de preservação da memória política e ideológica gaúcha. Não é suficiente se dizer que a
Pólo RS é uma "organização não-governamental que coordena os trabalhos desenvolvidos por voluntários para levar à implantação de ações" e que tal Agenda "É uma iniciativa de entidades públicas e privadas que traçou metas para o Rio Grande do Sul e desenvolve projetos para torná-las realidade até 2020", pois também é preciso deixar claro quais nomes estão por trás de tal empresa e quais entidades públicas e privadas encamparam o referido projeto, bem como quais são e a quais interesses atendem os referidos projetos.

Somente assim temos nosso direito de ser informados atendido adeqüadamente.

(No retrato, os Três Patetas Moe, Larry e Curly, que sempre tinham um plano)


Sobre lajotas

Quem, assim como La Vieja, é freqüentador assíduo do Mercado Público de Porto Alegre, muito provavelmente já deve ter notado que inúmeras lajotas do Largo Glênio Peres, em frente ao qual se encontra o referido mercado, estão ou esmigalhadas, ou rachadas ou soltas, quando não tudo isso simultaneamente.

Isso se deve, sem dúvida nenhuma, à brilhante idéia da gestão José Fogaça (PMDB) de tornar o espaço em frente ao mercado, no largo, estacionamento público aos finais de semana.

Provavelmente essa foi uma das mais estúpidas idéias da gestão Fogaça, pois o espaço calçado por lajotas em frente ao mercado não foi planejado para receber veículos, que como qualquer idiota sabe, pesam cada um em torno de uma tonelada. Trata-se de uma pressão insuportável para este tipo de calçamento.

O resultado, como qualquer idiota poderia prever, é o esmigalhamento ou a quebra das referidas lajotas. Como se já não fosse suficiente para os pedestres ter que disputar espaço com carros aos finais de semana, agora também se trata de uma espécie de caminhada com obstáculos se chegar ao mercado público por sua entrada principal.

Pelo menos ninguém irá dizer que Fogaça não deu atenção aos esportes em sua gestão.
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Não percam, ainda este mês, o concerto, ou algo que o valha, "Um natal em família", com Isabela Fogaça, cujo cartaz foi reproduzido acima por La Vieja, que é bem legal e está sempre ligada nos eventos culturais guascas.

Será um legítimo encontro familiar. Lá muito provavelmente estarão representantes das mais tradicionais estirpes farrapas, aquelas que todos nós bem conhecemos e que mantêm uma relação quase paternal com o estado graças a um peculiar conceito de família historicamente adotado por certos governos guascas.

E tem 20% de desconto para titulares do cartão clube do assinante, de Zero Hora.

Está de pai para filho, como sempre.

Eficiência privada

Empresários, como todos já sabem, são eficientes por definição.

Deve ser uma espécie de cerimônia a qual todos são submetidos em seus CDLs ou aqui mesmo, na FCDLs, na Fecomercio, na Federasul, na Farsul ou na Fiergs.

Ou talvez eles copulem somente entre eles desde os burgos, vá lá.

Aliás, mola-mestra de economia, sobrevivência do mais apto e regulação do mercado por uma espécie de mão invisível são palavras de ordem em tais cerimônias secretas, dizem as más línguas.

Ineficiente mesmo é o Estado, que arrecada muito, gasta mal e vive de olho na nem assim tão invisível mão do mercado, que empresários gostam muito de dar uma mãozinha a seus próprios negócios, principalmente quando ela é metida a espertalhona.

Que o diga o empresário de Novo Hamburgo preso ontem por sonegação fiscal por uma força-tarefa reunindo o Ministério Público e as polícias civil e militar gaúchas. A prisão preventiva do referido empresário, decretada pelo juiz Alexandre Schwartz Manica, foi executada ontem pela manhã
durante uma operação desencadeada pela Promotoria de Justiça de Combate aos Crimes Contra a Ordem Tributária.

Segundo informa a agência de notícias do ministério público gaúcho, O MP abriu dois processos criminais contra o referido empresário, que ainda não teve seu nome divulgado: um por crime fiscal e outro por adulteração de combustível.

Ainda segundo a referida agência,
"De acordo com os Promotores de Justiça Renato Velasques e Aureo Braga, as investigações desenvolvidas demonstraram que o acusado, contra quem já foi aberto processo criminal, sonegou cerca de R$ 2,5 milhões em ICMS do erário gaúcho por utilização de 'caixa 2'".

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Ella



Ella Fitzgerald interpreta A-tisket, A-tasket, em Ride 'Em Cowboy.

Porta-voz

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O que sempre veremos no jornaleco da Azenha, porta-voz dos interesses da elite guasca:

"Diante das denúncias de que o dinheiro de uma emenda do deputado Paulo Pimenta, liberada para projetos sociais da Universidade Federal de Santa Maria, não chegou ao destino, o PP pergunta se o PT exigirá investigação rigorosa, como faz com os adversários".

Por outro lado, o que nunca veremos em tal jornaleco:

"Diante das denúncias de que Antônio Dorneu Maciel e Flávio Vaz Netto estão envolvidos no escândalo do Detran, O PT pergunta se o PP exigirá investigação rigorosa, como faz com os adversários".

Tudo bem que o jornal tenha uma posição, embora não a assuma publicamente de modo algum, mas daí a aceitar o papel de garoto de recados já é demais. É muito rebaixamento.

Ganha uma assinatura da newsletter de Diego Casagrande, o asséptico, quem adivinhar qual colunista publicou tal nota.

E não vale repassar o brinde neste natal.
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Boas novas

Segundo uma pesquisa de opinião sobre liberdade de imprensa realizada em 14 países encomendada "pelo Serviço Mundial da BBC e feita pelas empresas de pesquisa GlobeScan e Synovate", os brasileiros são os mais preocupados "com a concentração dos meios de comunicação nas mãos de um 'pequeno número de grandes empresas do setor privado'", revela a BBC Brasil.

E 80% dos brasileiros entrevistados, além de ter revelado tal preocupação com a concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos e privilegiados brasileiros, acredita que esse monopólio "
pode levar à 'exposição das visões políticas' de seus donos no noticiário".

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Sábios brasileiros. Como se não bastasse a queda vertiginosa nas vendas e no número de assinantes de veículos da oligarquia midiática tupiniquim e a emergência de canais alternativos de informação e debate graças à internet, entre eles os blogs, agora os brasileiros parecemos (mais uma homenagem ao Farol da Alexandria) mais preocupados tanto com o monopólio de tal oligarquia quanto com a necessária filtragem daquilo que tal mídia teima considerar como conteúdos inofensivos, abordagens neutras e posicionamentos a-ideológicos.
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Mais revelações, entre elas a de que "Os brasileiros também se mostraram os mais interessados em participar do processo de decisão sobre o que é noticiado: 74% dos entrevistados disseram que gostariam de 'ser ouvidos' na escolha das notícias", no sítio da BBC Brasil.

(A charge acima é de Eugênio Neves, que junto com Cláudia Cardoso é um dos tantos incansáveis batalhadores pela democratização da mídia no Brasil)

Alberto Fujimori

Começou hoje, em Lima, o julgamento de Alberto Fujimori, presidente do Peru entre 1990 e 2000.

O julgamento, segundo informa a Reuteurs,
"cujo início coincide com o Dia Internacional dos Direitos Humanos, está sendo realizado dentro do quartel policial em que Fujimori está detido sob forte segurança desde que foi extraditado do Chile, no dia 22 de setembro".

Sobre os nada leves ombros de Fujimori pesam acusações por violações dos direitos humanos, especificamente
"por três casos que envolvem a morte de 25 pessoas e o sequestro de opositores", ainda segundo a Reuters.

O primeiro caso pelo qual Fujimori será julgado ficou conhecido como o massacre de Barrios Altos, ocorrido em novembro de 1991 no bairro de Barrios Altos, em Lima, quando 15 pessoas, entre elas uma criança de oito anos, foram assassinadas por um grupo militar formado por integrantes das forças armadas peruanas. O massacre tornou-se um símbolo das violações dos direitos humanos no Peru durante a era Fujimori.


Em 2000, quando estourou o maior escândalo de corrupção da história do Peru, Fujimori, como todo bom canalha, fugiu para o Japão, onde ficou até retornar ao Chile
, segundo a Reuters "com a esperança de voltar ao Peru sob acusações mais leves".

Ralou-se, pois a Corte Suprema chilena "aprovou sua extradição pelos casos de violação dos direitos humanos". Se condenado, Fujimori pode pegar até 30 anos de prisão.

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O jornaleco da Azenha
de hoje publicou a seguinte nota a respeito do julgamento e dos motivos pelos quais o assassino corrupto Alberto Fujimori está sentado no banco dos réus:


"Peru dá início hoje ao julgamento de Fujimori


Presidente do Peru por 10 anos - de 1990 até sua renúncia, em 2000 - , Alberto Fujimori começa a ser julgado hoje em seu país pela acusação de violações dos direitos humanos. Ele teria ordenado a esquadrões paramilitares que executassem e seqüestrassem guerrilheiros do movimento maoísta Sendero Luminoso, em 1992, durante o seu mandato. Se condenado, a pena pode chegar a 30 anos de prisão".

A Zero Hora, no entanto, só não conseguiu explicar o que uma criança de oito anos fazia entre os guerrilheiros do movimento maoísta que Fujimori mandava executar.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Milonga para as Missões



Acima, Renato Borghetti luta bravamente contra todos os esforços de um lépido, saltitante e faceiro maestro para interpretar a Milonga para as Missões, do meu conterrâneo Gilberto Monteiro, que o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira insiste em afirmar, apesar dos esforços de La Vieja, ter "nascido da cidade chilena de Santiago".

Aqui vocês ouvem a mesma Milonga sendo assassinada por uns tais de Victor e Leo, e aqui vocês a ouvem interpretada por um esforçado, porém competente, Eduardo Gomes, mas não fiquem de olho na prenda do gaiteiro.

Caso estejam interessados na interpretação da Milonga por Renato Borghetti, mas desta feita sem as intervenções do João do Pulo da música erudita, ela pode ser descolada aqui.

De brinde, vocês levam aqui a Prá ti Guria, de e com o brilhante Gilberto Monteiro, presente no excelente álbum Pra ti Guria.

Aqui vocês podem ler o que Aramis Millarch escreveu sobre Renato Borghetti e Gilberto Monteiro.

O partido da boa política



La Vieja está curiosa para saber onde anda a recente campanha deflagrada em rádio e TV pelo Partido Progressista (atual PP, antigo PPB, por sua vez antigo PDS, por seu turno a atual ARENA, deu para sacar?), "o partido da boa política" e do progressista Jorge Mardini, na qual tal agremiação se autodesignava como o partido da ética.

Tal campanha, além de disseminar tal idéia, servia como chamamento para o "1º Congresso Estadual do Partido Progressista: Repensar e Reinventar", realizado muito apropriadamente, diga-se de passagem, em Santa Maria, nos dias 09 e 10 de novembro último.

Segundo o próprio presidente estadual do PP, o deputado estadual Jerônimo Goergen, quando os progressistas falam em reivenção pensam em sua "predestinação de vanguardistas; nos reinventaremos porque a sociedade mudou e a população despertou em meio ao devaneio travestido de democracia e republicanismo. Agora, mais do que nunca, precisamos colocar nas ruas a nossa competência gerencial, os quadros com excelência em administração e os nossos movimentos internos" (Os grifos são meus).

Na cartilha que serviu de guia espiritual à tal convenção algumas teses também foram propostas para o debate, entre elas a sugestão de "transparência na gestão pública" a fim de se atingir "a modernização da gestão como solução para a crise estrutural do setor público", bem como "a ética na política municipal, estadual e nacional" como instrumento capaz de promover "a ética como elemento essencial do convívio humano".

La Vieja acredita, mas não tem certeza, que o partido da ética tenha desistido de tal campanha e enfiado a cola entre as pernas em função do fato do recente escândalo do Detran,
fraude que começou, segundo a Polícia Federal, "no período em que o departamento estava vinculado à Secretaria de Segurança Pública cujo titular era o deputado federal do PP, José Otávio Germano
", ter envolvido o nome de alguns de seus quadros com excelência em administração, tais como Flávio Vaz Netto, bem como Antônio Dorneu Maciel, um exemplo de "nossa competência gerencial", já parafraseando o próprio líder progressista.

Mas isso são só devaneios senis nada progressistas, claro.

Quando a emenda sai pior do que o soneto

Segundo informa a BBC Brasil, "Líderes do Partido Democrata americano exigiram nesta sexta-feira que seja aberta uma investigação criminal sobre o episódio da destruição de fitas de vídeo com imagens de suspeitos de pertencer à rede Al-Qaeda sendo interrogados por agentes da CIA (a agência de inteligência americana)".

Tais fitas de vídeo, conforme informou La Vieja logo abaixo, destruídas ainda em 2005, conteriam provas de que supostos suspeitos de terrorismo teriam sido interrogados sob tortura.

Michael Hayden, diretor da CIA, teria negado tais suposições levantadas pelo The New York Times, afirmando que as fitas teriam sido destruídas "não em função dos referidos métodos", hipótese que traria água para o moinho de grupos estadunidenes de direitos civis, mas sim "por motivos de segurança, já que a identidade dos agentes estadunidenses precisaria ser protegida".

Não é o que parece pensar, no entanto, o
"senador democrata Carl Levin, presidente do Comitê dos Serviços Armados do Senado", que ainda segundo a BBC Brasil "colocou em dúvida a justificativa da CIA de que as fitas foram destruídas para proteger a identidade dos agentes".

"Por essa teoria, seria necessário destruir todos os documentos da CIA que tenham nomes de agentes", teria dito Carl Levin.

Trata-se de uma boa justificativa, no final das contas, principalmente considerando-se que o responsável por elaborá-la é um subordinado de George Bush.


Interesses variegados

Muito embora um recente relatório elaborado a partir de dados coletados por 16 agências de inteligência estadunidenses tenha concluído que "é improvável que o Irã tenha suficiente urânio enriquecido para construir uma bomba nuclear até meados de 2010", tecnologia essa há muito dominada pela Casa Branca, que inclusive hoje se dedica, junto aos mesmos judeus antes massacrados durante o holocausto alemão, a testar entre o povo palestino armas experimentais como o DIME, para o pacifista George Bush o "Irã ainda é uma ameça à paz", eufemismo estadunidense para seus variegados (que La Vieja, assim como Fernando Henrique Cardoso, também sabe procurar palavras invulgares no dicionário a fim de impressionar jornalistas semi-alfabetizados e com isso ridicularizar a fala do presidente Luís Inácio Lula da Silva) interesses econômicos no Oriente Médio.

Não que a inexistência de vestígios de armas de destruição em massa seja um empecilho para a estratégia de "guerra preventiva" da Casa Branca, outro eufemismo do "american way of life" para "nosso petróleo está acabando".

Sobre a coerência tucana

Ainda segundo Rosane de Oliveira, "Na segunda-feira, dona Miguelina Maria de Lemos e Silva sairá de Mostardas, percorrerá cerca de 150 quilômetros até Porto Alegre para receber uma homenagem da Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social no Dia Internacional dos Direitos Humanos" (O grifo é de La Vieja).

Dona Miguelina, continua a colunista de Zero Hora, tem "105 anos de idade"
e "vive no Quilombo dos Teixeiras, em Mostardas". É "Filha de escravos, foi parteira, benzedeira e costumava ser responsável por arrumar e adornar os mortos nos funerais da região".

Louvável a iniciativa de Fernando Schüller, secretário da Justiça e do Desenvolvimento Social do novo jeito de homenagear.

Mas vejamos, mais detalhadamente, o que o PSDB do secretário que não tem a menor idéia sobre quais áreas públicas serão repassadas aos abnegados empresários interessados no projeto das OSCIPs pensa sobre quilombos e quilombolas.


"Vivemos, no Brasil, um tempo de relativização da propriedade privada. Tempo em que se solapam os fundamentos da própria justiça, em nome de uma pretensa justiça social. Sob o manto de uma suposta reparação histórica, a propriedade privada e, com ela, as liberdades começam a enfraquecer. Dissemina-se, inclusive, de parte daqueles que agem em nome dessas bandeiras ditas sociais e raciais, o sentimento de que respondem a uma 'causa' que tudo justifica, uma 'causa' que não pode nem ser limitada pela lei (...)

Em nome da função racial da propriedade, presenciamos a multiplicação de quilombolas fictícias. Um decreto presidencial de 2003, logo uma medida meramente administrativa, autocrática, está servindo para justificar por mera autodesignação um grupo como 'remanescente quilombola'. As pessoas em questão não precisam morar na área, o que constituiria um quilombo propriamente dito. Basta consultar o dicionário, sem nenhum viés ideológico-semântico! Passam, assim, a indicar uma área qualquer, rural ou urbana, como tendo pertencido a um 'quilombo fictício', dando início ao trâmite formal por intermédio da Fundação Palmares e do Incra. O resultado já é previsível, dada a ideologização e a partidarização dessas instituições
" (Grifos meus).

O artigo acima, de Denis Rosenfield, está a disposição no sítio do PSDB.

Embora Fernando Schüller pareça se esforçar, não consegue esconder o verdadeiro caráter de seu PSDB, e embora algumas postagens sequer precisem de argumentação, tal como esta, convém mencionar que, para os tucanos, reparações históricas são meras suposições a solapar convenientes conceitos de liberdade e de propriedade, bem como os próprios fundamentos de um também conveniente conceito de justiça, tudo em nome "de uma pretensa justiça social".

Estes negros e suas ficções...

Ainda bem que Fernando Henrique Cardoso tem um pé na cozinha.

O anticandidato

Rosane de Oliveira, em sua coluna de hoje, afirma que o senador Pedro Simon (PMDB-RS) é uma espécie de anticadidato por natureza.

Suas exigências e limites éticos estariam muito além das práticas corriqueiras do senado, é o que aparentemente se segue das declarações da colunista do jornaleco da Azenha. Tanto é que
"Todas as vezes que o senador Pedro Simon se ensaiou para ser candidato à presidência do Senado, esbarrou na resistência do PMDB e na falta de entusiasmo dos colegas com suas propostas", e isso porque Pedro Simon, ainda segundo Rosane, "não tem panelinha, compra brigas à esquerda e à direita e chega a ser ridicularizado pelo exageros no gestual quando está discursando" (O grifo é de La Vieja).

"A seu favor pesa o fato de ter uma biografia limpa, mas isso não é suficiente para conquistar a cadeira que foi de Renan Calheiros", finaliza a socialite política.

Há controvérsias.

As cruzadas morais do senador Pedro Simon, por exemplo, costumam ser bem seletivas, muito embora ele não faça parte de nenhuma panelinha e compre brigas à direita e à esquerda. Elas, por exemplo, conforme o RS Urgente, "nunca se referem às denúncias de corrupção que atingem seus correligionários no Rio Grande do Sul. Quando tais denúncias surgem na província de São Pedro, envolvendo políticos de seu partido ou aliados, reina o silêncio". Pedro Simon não cobrou "investigações rigorosas sobre as denúncias contra a máfia das consultas", denúncias essas "que envolveram, entre outros, Elmar Schneider e João Osório", ambos políticos do seu PMDB.

Também não é menos verdade que, mais recentemente, continua Marco Weissheimer, "embora sempre atento aos escândalos de corrupção em Brasília", Pedro Simon não tenha dito "uma só palavra, até agora",
sobre o escândalo do Detran, "que envolve integrantes de seu partido e aliados históricos".

Aliás, para Pedro Simon, continua o RS Urgente, ao contrário do que tenta sugerir Rosane de Oliveira sabe-se lá porque, "O silêncio não chega a ser uma novidade. Em outras ocasiões, como no recente caso Macalão, Simon também não produziu nenhum de seus discursos eloqüentes contra a corrupção".

Como se vê, estamos realmente diante de um homem de coragem, avesso às panelinhas e que compra brigas à direita e à esquerda. Com ele na presidência, certamente o senado seria referência internacional em matéria de coerência política.

Pelo menos quanto à gestualidade de Pedro Simon, bem como às suas conseqüências, Rosane de Oliveira tem razão. Seus
"cacos de pensamentos caóticos que não se realizam como palavras e perdem-se líquidos e inúteis como pequenos defuntos das suas idéias mortas" quase que imploram pela ridicularização, não fossem eles mesmos o próprio retrato da auto-ridicularização e da mais baixa excrescência política.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Novo jeito de equilibrar

Saquem só essa contradição dos novos jeitos de equilibrar gaudérios, flagrada hoje no jornaleco da Azenha:

Rosane de Oliveira, em sua coluna de hoje, em Lições de Equilibrismo (reproduzido acima), afirma que Fernando Lemos, presidente do Banrisul, fez por merecer o prêmio Equilibrista 2007, concedido anualmente pelo Instituto Brasileiro dos Executivos Financeiros, e isso não só pelos bons resultados do banco durante sua gestão, mas também pelo "malabarismo político" que protagonizou na entrega do referido prêmio,
diante dos ex-governadores Antônio Britto, the Salesman, e Germano Rigotto, o Meigo
, e de Yeda Crusius:

"Para não deixar a chefe nem os ex-chefes com ciúme, Lemos disse que o Banrisul só está conseguindo os resultados de hoje porque Britto iniciou o processo de saneamento, com o empréstimo do Proes, Rigotto implantou um modelo moderno de gestão e Yeda comandou a bem-sucedida operação de venda de ações preferenciais" (O grifo é de La Vieja).

Macacos me mordam, mas o que é mesmo este tal de Proes?

Bem, o Proes, Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Atividade Bancária, segundo informa a mesma Zero Hora, "foi criado em 1996 para evitar a concentração de instituições financeiras nos Estados". Criado no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), tal programa de "saneamento" das atividades bancárias estaduais foi logo encampado por Antônio Britto.

Ocorre que este mesmo programa, considerado por Lemos como fundamental para os resultados hoje obtidos pelo Banrisul, é o mesmo programa que agora precisa ser pago pelo atual novo jeito de equilibrar como parte da dívida extralimite do RS a partir do recente empréstimo obtido por Aod Cunha junto ao Bird. Nossa dívida extralimite, segundo ainda nos ensina a Zero Hora, "
São os débitos que ficaram de fora da renegociação que o governo federal fez com os Estados em 1998. Na época, a União limitou o comprometimento da receita dos Estados com o pagamento das dívidas chamadas de intralimite a 13%. Os contratos que ficaram de fora, chamados de extralimite, elevam o comprometimento da receita a 18,5% no RS" (O grifo é de La Vieja).

E não é La Vieja que está louca, é a própria Zero Hora que didaticamente diz:


"O que será pago nessas parcelas? (Zero Hora se referindo às duas parcelas pelas quais será repassado o financiamento do Bird):
Em 2008, o governo pagará dívidas mobiliárias e do Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Atividade Bancária (Proes). O Proes foi criado em 1996 para evitar a concentração de instituições financeiras nos Estados. Em 2010, serão honradas outras dívidas, também relativas ao Proes" (Os grifos, mais uma vez, são de La Vieja)


Ou seja, o contrato assinado pelo novo jeito de governar de Antônio Britto por ocasião da implementação do Proes no RS, acima incensado por Fernando Lemos, integrante do governo da Rainha das Pantalhas, um dos responsáveis pela elevação de 13% para 18,5% do comprometimento da receita do RS com o pagamento da dívida, agora precisa ser pago pelo novo jeito de governar do mesmo Fernando Lemos através da contratação de um empréstimo de US$ 1 bilhão junto ao Bird.

Simples assim.

Isso é o que La Vieja chama de lições de equilíbrio.

Destruição de provas

Fitas de vídeo gravadas ainda em 2002, contendo imagens de interrogatórios de supostos suspeitos de terrorismo, definição na qual se enquadra, pelo menos na era pacifista de George Bush, todo sujeito de barba com feições árabes que se vista de modo estranho, foram destruídas pela CIA (Central Intelligence Agency) ainda em 2005.

Segundo a BBC Brasil,
"A revelação veio depois que o jornal americano The New York Times comunicou à agência, na noite de quarta-feira, que iria publicar uma reportagem sobre a destruição do material, que conteria evidências de que "métodos cruéis" foram aplicados durante os interrogatórios".

Michael Hayden, diretor da CIA, no entanto, afirmou que as fitas foram destruídas não em função dos referidos métodos, mas por motivos de segurança, já que a identidade dos agentes estadunidenses precisaria ser protegida. Ele não conseguiu explicar, porém, porque cargas d'água só agora, depois do comunicado que recebeu do New York Times, a CIA resolveu tornar tal informação pública.


Entretanto, ainda segundo a BBC Brasil e a despeito da justificatica apresentada por Hayden, "De acordo com o correspondente da BBC em Washington Jonathan Beale, entre as técnicas aplicadas durante os interrogatórios estariam o afogamento, que segundo grupos de direitos humanos pode é enquadrado como tortura em vários tratados internacionais dos quais os Estados Unidos são signatários".

O fato dos EUA serem signatários de acordos internacionais que consideram o afogamento como tortura infelizmente não tem a ênfase dada pela BBC Brasil, uma vez que quem conhece o básico da política de relações internacionais da era Bush sabe que eles não dão a mínima para tais tratados e que a comunidade internacional, notadamente a ONU, vem fazendo vistas grossas para as arbitrariedades estadunidenses há um bom tempo.

Isso traria, contudo, uma bela dor de cabeça interna para George Bush, uma vez que métodos cruéis de interrogatório abririam caminho para o questionamento, por parte de grupos de direitos civis e até mesmo por políticos democratas estadunidenses, tanto da legalidade dos métodos de interrogatório utilizados pelas agências de inteligência da Casa Branca quanto do expediente de se livrar das evidências que os corroborariam.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Delicatessen



Todo mundo esquecerá de novos jeitos de governar e assemelhados depois de ouvir toda a leveza e doçura da voz de Ana Krüger, da banda gaúcha Delicatessen, que tem ainda Carlos Badia no violão, Nico Bueno no baixo, Mano Gomes na bateria e New no piano como convidado especial para o recente e primeiro álbum Delicatessen: Jazz + Bossa.

Acima, I Love the way you're breaking my heart (L. Alter e M. Drake).


Entre tapas e beijos

O projeto de ajuste fiscal do novo jeito de ajustar o que antes era desenvolvimentismo, capitaneado pelo hoje fiscalista, mas antes desenvolvimentista Aod Cunha (PSDB), recentemente duramente criticado pelo também bipolar Nélson Proença (PPS), antes desenvolvimentista e hoje secretário de Desenvolvimento de um governo fiscalista, precisará rebolar se depender de setores da base de apoio do reino encantado das pantalhas na Assembléia Legislativa.

Explica-se.

As críticas de Proença ao governo do qual faz parte, o que seria tratado pelo jornaleco da Azenha como implosão, confusão e absoluta falta de sintonia se se tratasse de um governo petista, foram recentemente endossadas pelas lideranças empresariais gaúchas, leia-se Fiergs, Federasul e afins, uns caras que brincam de Lyons e Rotary Clube e nas horas vagas financiam as campanhas do DEM (antigo PFL, por sua vez uma mutação do PDS, antiga ARENA).

É que esse caras não curtem muito esses lances de fim de incentivos, anistias, isenções fiscais e coisas do gênero, muito menos de combate à sonegação fiscal e formação de forças-tarefa, pelo estado, a fim de se cobrar a dívida ativa de inadimplentes. Não foi senão este o motivo pelo qual endossaram as palavras de Proença. Sabem como é, empresário como a mola-mestra da economia e aquela coisa toda de mão invisível do mercado e sobrevivência dos mais aptos e coisa e tal, com as quais Keynes tanto se divertiu em "O fim do laissez-faire". Socialização do prejuízo e privatização do lucro quando convém, em outras palavras, que o Estado é bom quando absorve prejuízos privados ou abre mão de receitas em favor do investimento privado.

Pois bem, eis que La Vieja dizia que estes caras não só endossaram as palavras de Proença como também são carne e unha com o esquecido Paulo Feijó (DEM), contumaz jogador de golfe e nas horas vagas vice-governador do novo jeito de se relacionar com os vices, líder maior do movimento que conduziu parte de sua base aliada na Assembléia Legislativa a recentemente derrotar o tarifaço do seu novo jeito de aumentar impostos. Como é que pode que uma governadora proponha algo e seu vice o contrário, não vem ao caso. Só se fosse um governo petista, é claro.

O caso é que, seguindo o baile, ainda ontem, segundo o jornaleco da Azenha, a Rainha das Pantalhas teria indiretamente afirmado que "
os R$ 200 milhões que serão economizados por ano", em função da economia a ser feita com o pagamento de juros a partir da liberação do empréstimo de US$ 1 bilhão pelo Bird, serão investidos "em um projeto de desenvolvimento focado em educação, outros indicadores sociais (acesso à saúde), riquezas naturais, acesso a mercados internacionais e organização da sociedade".

"É isso que traz investimentos para cá. Outros Estados com os quais concorremos dão muitos incentivos fiscais. Não podemos dar muitos", teria dito a governadora Yeda Crusius (PSDB).

Ora, junte-se a isso a recente pendenga envolvendo as críticas de Proença ao ajuste fiscal de Aod Cunha, mera verbalização do descontentamento patronal com os rumos dados ao estado pelos seus atuais representantes, ajuste do qual o governo não pode abrir mão em função de algumas suas cláusulas serem condição para a liberação do referido empréstimo, e teremos uma bela disputa de bastidores entre alguns dos principais financiadores, se não financeiros pelo menos morais e ideológicos, da campanha de Yeda Crusius e os agora "fiscalistas", mas antes desenvolvimentistas, tucanos.

Tais financiadores, para tanto, só precisarão acionar seu garoto de recados próprio e esperar que os deputados do DEM, para quem não sabe office-boys de luxo do empresariado guasca, façam o restante do barulho.

Mas, como La Vieja sabe que eles são brancos e que se entendem, também sabe que se trata de uma relação entre tapas e beijos, como diz o vulgo.

Funcionalismo público, tremei!

O recente aval dado pelo Bird ao empréstimo de US$ 1 bilhão para a reestruturação da dívida extralimite do estado (dívida oriunda de contratos não repactuados com a União nos idos de 1998 e que atualmente gira em torno de 10% da dívida total gaúcha, que é de R$ 33 bi), financiamento que ainda depende da aprovação do governo federal, traz más notícias para o funcionalismo público gaúcho.

É que serão amargas as contrapartidas já assumidas pelo novo jeito de se endividar.

Estão entre elas a redução e a contenção de gastos, o que certamente irá inviabilizar, por exemplo, tanto o aumento salarial para setores menos favorecidos financeiramente do funcionalismo quanto a aprovação, pela Assembléia Legislativa, do subsídio ao poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública e à Procuradoria-Geral do estado, o que certamente irá azedar de vez as relações da Rainha das Pantalhas com alguns de seus mais nobres súditos, e a aprovação, também pela Assembléia, do projeto das famigeradas OSCIPs, que prevê a transferência da administração de órgãos públicos do estado para tais
Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, abnegadas instituições gerenciadas por não menos altruístas empresários que, sem medo de avançar e com modernidade e coragem, imediatamente reduzirão custos e aumentarão a eficiência das áreas que administrarem, muito embora o secretário de Justiça e Desenvolvimento Social do novo jeito de tergiversar ainda não tenha a menor idéia de quais áreas pretende repassar a tão nobres homens.

Também estão entre tais contrapartidas, segundo o jornaleco da Azenha, propostas de aumento da receita, entre elas o
"combate à sonegação fiscal" e a formação de uma "força-tarefa para a cobrança da dívida ativa de inadimplentes com o Estado".

Bem, do jeito que anda o interesse dos novos jeitos de governar em cobrar dívidas, os sonegadores podem ficar tranqüilos.

O funcionalismo, por sua vez, já pode ir tirando seu cavalinho da chuva.

(No retrato, o suposto Monstro do Lago Ness, que assim como o governo Yeda Crusius, ainda não teve sua existência provada)

Fagundes, o retorno

Desde sua volta La Vieja aguardava, ansiosa, pelo retorno de Fagundes, o Puxa-Saco, personagem nem assim tão ficcional do grande Laerte.

Não precisou esperar muito, na verdade.

E ele retornou em grande estilo.

Em sua coluna de ontem no jornaleco da Azenha, Rosane de Oliveira tripudiou sobre a sugestão do presidente Lula (PT) de que o Rio Grande do Sul precisaria de
"um pacto com as forças vivas da sociedade gaúcha para tirar o Estado da crise financeira". Tal afirmação teria sido feita aos senadores gaúchos Paulo Paim (PT), Pedro Simon (PMDB) e Sérgio Zambiasi (PTB) antes da audiência do presidente com a governadora Yeda Crusius (PSDB).

Segue, abaixo, o comentário da socialite política:

"Com todo o respeito ao presidente da República, essa história de pacto é conversa para boi dormir (...) Em incontáveis reuniões com empresários, o presidente reconheceu que a situação do Estado é gravíssima, prometeu olhar com carinho para o Rio Grande do Sul, mas ficou nisso. Agora, determinou a realização de um grande encontro com representantes do governo, da Assembléia Legislativa, do movimento sindical e de entidades como a Fiergs, a Federasul, a Farsul e a Famurs".

Hoje a colunista voltou à carga, usando de toda sua já notória fina ironia e lendária sagacidade, cantadas em prosa e verso pelo jornalismo mundial:

"Diz a lenda que no setor público quem não quer resolver um problema cria uma comissão ou um grupo de trabalho. É essa a primeira impressão do grande encontro das 'forças vivas' do Rio Grande do Sul com a ministra Dilma Rousseff, sugerido pelo presidente Lula. Menos mal que a reunião será em Porto Alegre: assim ninguém precisa gastar com passagem de avião e hotel em Brasília".

Não contente em abalar os alicerces do conceito de argúcia, apresentou argumentos capazes de justificar sua tese, o que não deixa de ser uma evolução no caso do jornalismo praticado pelo Grupo RBS:


"O dado concreto - para usar uma das expressões preferidas do presidente Lula - é que não faltam idéias para tirar o Estado da crise. Só que elas esbarram na Constituição, na resistência de cada setor ou nas pressões de corporações por aumento de gastos. Uma reunião de representantes da sociedade gaúcha não terá poder para reduzir os gastos com servidores ativos e inativos, nem para aumentar a receita de ICMS, tampouco para impedir o aumento de gastos decorrente de exigências constitucionais".

Magistral.

Este não foi, no entanto, e o objetivo desta pequena glosa não é outro que não refrescar nossa memória, o posicionamento de tal colunista quando lideranças parlamentares farrapas propuseram o "Pacto Pelo Rio Grande" e, no mesmo sentido, lideranças empresariais gaudérias propuseram a "Agenda Estratégica do RS 2006/2020: O Rio Grande que Queremos", projeto capitaneado pela Farsul, pela FCDLs, pela Federasul, pela Fecomércio e pela Fiergs, clubinhos das indústrias, do comércio e da agricultura guascas, todos também reluzentes integrantes das "forças vivas" do Rio Grande do Sul.

Ora, se o
"grande encontro com representantes do governo, da Assembléia Legislativa, do movimento sindical e de entidades como a Fiergs, a Federasul, a Farsul e a Famurs" a fim de se estabelecer "um pacto com as forças vivas da sociedade gaúcha para tirar o Estado da crise financeira" proposto pelo presidente Lula não passa de balela, pois "essa história de pacto é conversa para boi dormir", porque cargas d'água também não passava de conversa para boi dormir tanto o malfadado "Pacto Pelo Rio Grande" parlamentar quanto a "Agenda Estratégica" empresarial? Onde andavam toda a ironia e a coragem dessa notável colunista quando eram as próprias "forças vivas" guascas que propunham pactos e agendas como forma de se solucionar a crise financeira do estado?

La Vieja tem a resposta. Andavam, muito provavelmente, escondidas e encolhidas no departamento financeiro da Zero Hora, absolutamente dependente das verbas das "forças vivas" comunitárias, que o Grupo RBS é um grupo comunitário, como todos sabem. A comunidade se restringe a uma meia dúzia, mas ainda assim é uma comunidade.

Ademais, embora à época de pactos e agendas também fosse "dado concreto" que as teses defendidas tanto pelo "Pacto pelo Rio Grande" quanto pela "Agenda Estratégica" fatalmente também esbarrariam
nos problemas de se "reduzir os gastos com servidores ativos e inativos" e de se "aumentar a receita de ICMS", bem como no problema de se "impedir o aumento de gastos decorrente de exigências constitucionais", problemas esses que de cara inviabilizariam o pacto proposto pelo presidente Lula segundo Rosane de Oliveira, isso não parecia problemático para as invencíveis "super-forças vivas" gaudérias. Se tudo isso era um problema, pelo menos não se ouviu um pio ou sequer uma única ironia vindos dos lados da Azenha.

Agora, no entanto, estranhamente tudo isso passou a ser um problema para se estabelecer o dito pacto proposto pelo presidente Lula, considerado por Rosane de Oliveira como mera "conversa para boi dormir".

Mas, evidentemente, isso não passa de um delírio ranzinza, pois jamais alguém teria motivos para pensar que um profissional do Grupo RBS passaria a ver tantos problemas para a realização de um pacto só porque ele foi sugerido pelo presidente Lula e não pelos anunciantes de Zero Hora.

Bem capaz!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Bancários santiaguenses confraternizam

Ocorrerá amanhã, em Santiago, na sede campestre da Associação dos Funcionários do Banrisul, o jantar anual de confraternização e de posse da nova direção do Sindicato dos Estabelecimentos Bancários de Santiago (SEEB-Santiago) para o triênio 2008/2010.

O referido sindicato será novamente presidido por Edmílson Walmir Pinheiro do Amaral (foto ao lado), que terá como vice-presidente o ex-vereador petista Antônio Carlos da Rosa Bueno.

La Vieja, com muita honra, assessorou tal sindicato, que conta entre seus fundadores com seu pai, José Cândido Duarte, nos ainda politicamente férteis anos 80, na área de comunicação nos anos de 1997 e 1998.

Segue abaixo, enviado por seu atual presidente, trecho do discurso de posse do Amaral, como é conhecido o sindicalista santiaguense no meio bancário, no qual La Vieja deu uns pitacos, a pedido do também seu futuro presidente:

"Gostaria de introduzir este pequeno discurso de posse citando um texto já surrado e conhecido de todos, porém nem por isso menos valioso e atual.

Bertold Brecht, dramaturgo e poeta alemão que viveu na primeira metade do século vinte, escreveu as seguintes palavras:

'O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo'.

As palavras de Brecht ainda hoje ecoam nas vozes de trabalhadores, sindicalizados ou não, do mundo inteiro, e isso não ocorre por acaso. O principal motivo pelo qual tais palavras são freqüentemente retomadas pelos trabalhadores é o fato de não há sociedade humana possível sem política e sem trabalho. Enquanto a primeira é responsável pela organização e pela estabilidade do Estado, o segundo é responsável pela sua sustentação. Ambos, política e trabalho, portanto, são os pilares de toda e qualquer sociedade organizada.

Somos nós, trabalhadores, que sustentamos com nosso trabalho a sociedade na qual vivemos. Sem nosso trabalho diário ela desmoronaria sobre si mesma, tornando-se uma massa disforme e sem vida. Não haveria produção braçal ou intelectual e a economia não seria senão uma ilusão. Não haveria riqueza para ser repartida porque não haveria riqueza produzida.

Por outro lado, sem organização política nossa sociedade viveria o caos. É ela a responsável pelas leis, pela fiscalização de seu cumprimento, pela escola de nossos filhos, pelo modo como nos organizamos a fim de produzir mercadorias, pelo emprego e, dentre muitas outras fundamentais funções, pelo modo como as relações de trabalho são estabelecidas entre patrões e empregados. E não podemos esquecer que todos aqui somos empregados, tenhamos nós nosso carro do ano ou nossas férias em Santa Catarina. Somos empregados ou da iniciativa privada ou do próprio Estado.

E é exatamente na relação entre trabalho e política que se encontra a magia das palavras de Brecht. Elas tentam nos fazer ver o quanto nosso trabalho está interligado com a dimensão política de nossa sociedade. Elas tentam nos fazer ver o quanto é necessário intervirmos em nossa realidade política como forma de termos o controle de nossas próprias vidas, seja exercendo nosso direito ao voto ou nos organizando politicamente em sindicatos, como é o nosso caso. Sem a consciência de que intervir na realidade política é intervir em nossas próprias vidas não somos mais do que máquinas, dispensáveis e substituíveis.

Não esqueçamos jamais das palavras de Brecht, pois não somos máquinas, mas sim seres humanos. E, como tais, devemos exigir nosso lugar de protagonistas na história. Quando os trabalhadores não se organizam e não protagonizam a história a política é geralmente dominada por interesses patronais, seja de uma burocracia partidária travestida de interesses socialistas, seja por um governo de classe legitimamente burguês. São muitos os exemplos na história de sociedades humanas governadas por interesses patronais ou burocratas, interesses de minorias que excluem a grande massa trabalhadora dos processos decisórios. Quando isso ocorre, invariavelmente temos como conseqüência sociedades opressoras e exploradoras, onde a política não é senão um espaço de manutenção de privilégios.

Daí, mais uma vez, a importância das palavras de Brecht. Não basta a luta sindical pelos interesses da categoria. Tal luta, embora necessária, é só um passo no processo de intervenção autônoma e consciente do trabalhador, dono do trabalho no modo de produção capitalista, na esfera política, a fim de protagonizar a história, a fim de organizar a sociedade na qual vive e da qual seus filhos serão herdeiros. O objetivo final da ação conjunta dos trabalhadores deve ser a intervenção direta na esfera política, a fim de organizar a sociedade de modo a atender as demandas da maioria e não de poucos privilegiados.

Historicamente alguns sugeriram que tal intervenção ocorresse de modo radical, enquanto outros, por sua vez, sugeriram que tal intervenção ocorresse gradativamente. Este sindicato não tem a resposta para tal questão e nem seria petulante a ponto de tentar respondê-la, principalmente levando-se em consideração o fato de que ela tem sido arbitrada pela própria história. O que sabemos, no entanto, é que o trabalhador não pode ser ingênuo a ponto de pensar que sua omissão não implica conseqüências políticas indesejáveis e que os poucos que as desejam algum dia delas abririam mão espontaneamente, deixando assim de dar as cartas do jogo político e, por conseguinte, de controlar a mesa. Outra ingênua visão trabalhadora que urgentemente deve ser abandonada é a de que esses poucos não farão de tudo para manter todos os jogadores com as mesmas cartas e o privilégio de continuar as distribuindo. Embora alguns trabalhadores recentemente tenham interpretado tudo isso como carta branca para toda sorte de imoralidade, trata-se apenas de mais algumas lições da velha e boa história.

O que faremos de agora em diante com mais essas lições dessa velha senhora é um desafio do qual não pode se furtar todo trabalhador consciente de sua tarefa histórica".





Buenas, bom trabalho, então, aos sindicalistas santiaguenses. Do jeito que as coisas andam para os lados do sindicalismo brasileiro, não será uma tarefa fácil.


Paulinho da Viola canta Lupicínio



Paulinho da Viola interpreta Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

De relho

Imperdível, se é que não foi só La Vieja que perdeu, a pendenga envolvendo Jon Lee Anderson, autor de "Che, uma Biografia" (capa reproduzida ao lado) e o repórter Diogo Schelp, de Veja, do qual também tomou as dores o obtuso Reinaldo Azevedo.

Conforme Pedro Doria, que acompanhou de camarote a peleja, na qual, diga-se de passagem, Schelp e Azevedo apanharam de relho,
"O repórter Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, foi procurado há umas semanas pelo também repórter Diogo Schelp, da Veja. O objetivo era uma entrevista curta para a composição da reportagem que saiu na revista a respeito dos 40 anos da morte de Guevara".

"Anderson", finaliza Doria antes de publicar a resposta do biógrafo de Che a Diogo Schelp, "respondeu a Diogo mas acabou não sendo procurado. Na semana passada, o veterano repórter de guerra da New Yorker teve acesso e leu a reportagem. Foi sua a decisão de tornar pública esta resposta a Schelp, que começou a circular por email entre os jornalistas brasileiros".

Segue, abaixo, um trecho da referida resposta de Anderson, publicada por Doria:

"Caro Diogo,

Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo (...)

O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é (...)

No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.


Cordialmente,
Jon Lee Anderson".

O baile seguiu com a resposta de Diogo Schelp a Anderson, também publicada por Doria, da qual segue um trecho abaixo:

"Caro Anderson


(...) Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.

Sem mais,

Diogo Schelp".

Jon Lee Anderson, que deve ter dormido na pia em função da ameaça de Diogo, não baixou a bola e deu o troco, na tréplica abaixo, também publicada na íntegra por Doria, ao almofadinha metido a facão sem cabo de Veja:

"Prezado Diogo Schelp,

(...) Você me acusa de ser antiético, um 'mau jornalista'. Questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?

Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio (...)

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel (...)

Cordialmente,
Jon Lee Anderson
".

Por fim, também imperdível é a análise de Doria sobre a pendenga toda, da qual La Vieja reproduz um trecho abaixo:

"A troca de mensagens pública entre o repórter Jon Lee Anderson e o editor de Internacional de Veja, Diogo Schelp é um bocado importante – e não pelo que ela diz a respeito de Schelp; pelo que diz sobre Veja (...)

A reportagem sobre Che não saiu como saiu porque esta é a qualidade de trabalho que Schelp pode apresentar. Quem o conhece diz que é bom repórter, que jamais tem preguiça de apurar. A reportagem saiu assim porque assim é a linha editorial de Veja: a tese já está definida antes que qualquer repórter se lance à apuração. As fontes consultadas são aquelas que confirmarão a tese. Se alguém disser o contrário, que seja ignorado. Não é a curiosidade, a tentativa de compreender o mundo, que move a pauta de Veja. O que lhe move é a vontade de dizer o que seus leitores devem pensar (...)

O caso de Reinaldo Azevedo é diferente de Schelp. Este tem por função entrar mesmo nestas polêmicas e argumenta como lhe é típico: quando o debate é impossível de ser encarado, parte-se para lidar com os acessórios. Nos EUA, isto tem nome e há especialistas do ramo. São os
spin doctors. Daí, que se debata a tradução, alguma questão ética imaginária, que se insinue que um repórter sênior da New Yorker, uma das revistas mais influentes do mundo, sentirá falta de ver seu nome em Veja (...)".

Meninos, La Vieja viu. Algumas coisas que Anderson escreveu para Schelp seriam suficientes, como se diz lá em Santiago do Boqueirão, para o repórter de Veja ensacar sua viola e mudar de ramo. Isso serve para vermos como a mediocridade editorial e profissional não floresce só para os lados do Guaíba, mas como que se dissemina por todo solo de nossa mãe gentil.

O mérito todo desta postagem vai para o fã número 1 de La Vieja, o meu amigo Cléber Wesz, que catou e com ela discutiu o conteúdo de todos os enlaces acima. Abraços de La Vieja, teu.

RS Vip

"O deputado Sandro Boka (D), do PMDB, deu a seu filho o nome do presidente da Assembléia. O filho de Boka e Luana Antunes, Frederico Antunes de Oliveira, nasceu com 3,240 quilos, ontem, em Porto Alegre.

Como o pai é colorado fanático, o bebê ganhou o apelido de Boka Junior, numa referência ao time argentino que derrotou o Grêmio na final da Copa Libertadores da América deste ano
".

É ou não é a mais fashion e bem informada socialite política farrapa?

La Vieja continua defendendo a tese de que a Página 10 de Rosane de Oliveira é constantemente publicada no caderno errado, propositadamente, por algum seu alarife colega. Seu lugar natural não é outro que não este.

"Fiscalistas" e "Desenvolvimentistas"

"É verdade que a economia privada do Rio Grande do Sul vive um ótimo momento em 2007. Devemos então aproveitar para que não tenhamos apenas mais um espasmo cíclico de recuperação da produção gaúcha. No meu ponto de vista, a melhor forma de aproveitarmos esse momento e atrairmos mais investimentos é reafirmarmos nossas verdadeiras vantagens competitivas (como a qualidade da mão-de-obra e a capacidade de pesquisa e inovação) e melhorarmos naquilo que ficamos para trás, fazendo o ajuste fiscal. Com espírito de equipe e com a promoção da união das forças políticas que construíram este Estado forte e pujante, tenho certeza de que chegaremos lá" (Os grifos são meus).

Aod Cunha de Moraes, tesoureiro-mor do Rainha das Pantalhas, em resposta no jornaleco da Azenha de hoje a Nélson Proença, secretário de Desenvolvimento do novo jeito de ajustar e seu colega de equipe, que ontem afirmou ser seu governo uma fábrica de más notícias obcecada com o tema do ajuste fiscal.

O legal dessa sintonia e desse espírito de equipe do governo Yeda Crusius (2007-?) é que o PSDB desenvolvimentista do governo Antônio Britto, the Salesman (1995-1998), é mesmo PSDB hoje fiscalista de Aod Cunha, e o governo hoje fiscalista de Nélson Proença é o mesmo antes desenvolvimentista nos anos da gestão empresarial de Antônio Britto, até hoje imbatível no prêmio vendedor do ano.

Não deu para entender?

Nem eles se entendem, todos podem ficar tranqüilos.

Ou não.

(No retrato, na falta de um de Aod Cunha, a foto que Telly Savalas, o popular Kojak, autografou especialmente para La Vieja)

Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo



Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo interpretam Silencio, de Rafael Hernández, no documentário Buena Vista Social Club, de Wim Wenders, realizado a partir do álbum The Buena Vista Social Club, produzido por Ry Cooder.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Sobre poços

Segundo a socialite política mais fashion e in do reino encantado das pantalhas, "Os empresários do setor da construção pesada que almoçaram com o secretário do Desenvolvimento, Nelson Proença, ontem, foram surpreendidos por declarações incomuns para quem participa do governo".

Proença, ainda segundo Rosane de Oliveira,
teria defendido "a mudança do discurso centrado exclusivamente no ajuste fiscal, que marcou o primeiro ano do governo", advertindo que "o Estado perderá investimentos se continuar batendo nessa tecla".

Embora a imagem do Brasil, que segundo Proença "se prepara para entrar em um novo ciclo virtuoso de crescimento", esteja atraindo cada vez mais investidores, "
o Estado está ficando para trás 'em razão do único discurso adotado pelo governo até agora, que é o ajuste fiscal'".

"- Ou o Rio Grande do Sul incorpora o discurso do desenvolvimento e abandona o único tema de sua agenda até agora, ou, infelizmente, vai apenas assistir aos investimentos nos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro", parece ter finalizado Proença.

Três lições podem ser tiradas das afirmações acima:

A primeira delas é que há uma absoluta ausência de sintonia entre os mais altos integrantes da cúpula do novo jeito de governar, o que prova que se trata de um juntamento, e não de uma equipe. Sacam o time do Grêmio que caiu em 2004 para a segundona e o time do Inter que, literalmente no apagar das luzes, escapou do rebaixamento contra o Palmeiras em pleno Beira-Rio em 1999? Pois é, juntamentos.
Se bem que, pensando melhor, se o secretário de Justiça e de Desenvolvimento Social do novo jeito de tergiversar não tem a menor idéia de áreas seu governo pretende repassar às OSCIPs, porque cargas d'água seu secretário de Desenvolvimento precisaria estar a par dos projetos e dos rumos do discurso da Rainha das Pantalhas? Ademais, se um alto coturno da nobre e encantada equipe do novo jeito de reinar afirma com todas as letras que o governo do qual faz parte é "uma fábrica de más notícias" e que o único tema de sua agenda até agora foi o ajuste fiscal, há algo de podre no reino das pantallhas.

A segunda delas é que "isso vai afugentar os investidores" é, pelo menos nestes tempos reais, um belo eufemismo para "mandou a Ford embora". A rediscussão das linhas oficiais de crédito e das políticas de anistia, incentivo e isenção fiscal, mesmo daquelas em andamento, proposta recentemente como parte do projeto de ajuste fiscal do governo de Aod Cunha, tesoureiro-mor do Reino das Pantalhas, assemelham-se em muito, guardadas as devidas proporções, às rediscussões contratuais propostas por Olívio Dutra (1999-2002) no famoso caso Ford, quando o Estado quase ficou refém do capachismo oficial travestido de modernidade. E embora tenha "
ficado claro para as montadoras que acordos com Estados dependem não apenas do consentimento dos governantes de plantão, mas da capacidade fiscal presente e futura dos Estados de honrar os compromissos por prazos mais longos", o próprio secretário de Desenvolvimento do Reino das Pantalhas parece não dar a mínima para o esforço de seu governo pelo ajuste fiscal. E a vantagem maior disso tudo, pelo menos para quem conta com a ajuda da mídia amiga, é que muito provavelmente ninguém, depois, dirá que "a Rainha das Pantalhas mandou a Toyota embora", não importando o tamanho do esforço fiscal que seu governo venha a implementar.


A terceira delas, finalmente, tem a ver exatamente com esse "dar de ombros" de Nélson Proença em relação à atual proposta de ajuste fiscal de seu atual governo. O que não surpreende de modo algum a quem tem um mínimo de memória política, uma vez que Proença foi um dos fiéis escudeiros de Antônio Britto, the Salesman, durante a privataria dos anos 1995-1998 aqui no RS e, de modo inequívoco, pode ser apontado como um legítimo representante do "supra-sumo da modernização dos processos de administração e gestão pública, ou seja, do avanço e da modernização da máquina estatal". Proença, que sempre foi um homem de muita coragem, jamais teve medo de avançar e de nos modernizar, ao contrário do que pensa Fernando Schüler, e não foi senão tal destemor, que Proença deseja profundamente continuar pondo em prática, um dos principais motivos pelos quais chegamos ao fundo do poço, do qual seu governo hoje tenta sair através do ajuste fiscal, mesmo tendo sido, no passado, um dos principais responsáveis por cavá-lo. Não surpreende, então, que Proença não tenha qualquer compromisso com ajustes fiscais.

É bem difícil entender os novos jeitos de governar farrapos, na verdade. Cavam seu próprio poço e depois, desesperadamente, tentam dele sair, como se não tivessem nenhuma responsabilidade histórica por estarem onde estão.

A cidadania segundo a RBS

Segundo a Wikipedia, cidadania é "o conjunto dos direitos políticos de que goza um indivíduo e que lhe permitem intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e na sua administração, seja ao votar (direto), seja ao concorrer a cargo público (indireto)". Trata-se, evidentemente, de uma definição de cidadania restrita ao conceito de direitos políticos presente em toda e qualquer democracia herdeira do processo revolucionário liberal burguês moderno e, exatamente em função disso, limitada.

Uma sua definição mais abrangente, para um bom começo de conversa, teria de levar em conta o fato de que tal conceito não se esgota na intervenção formal na coisa pública, seja no processo eleitoral ou mesmo exercendo um cargo público. Ser cidadão, para muito além do exercício dos direitos políticos, também implica intervir de modo informal, diríamos assim, nos negócios públicos, seja tendo consciência de que se é sujeito de direitos individuais e coletivos, entre os quais os direitos à vida, à liberdade de expressão e à igualdade, seja tendo consciência de que também se é sujeito de deveres, obrigações de todo e qualquer cidadão para consigo e para com a coletividade, ambos pressupostos da construção do bem comum, fim de qualquer Estado minimamente sensato.

Nesse sentido, anotados acima os devidos esclarecimentos, notadamente o termo cidadania alcança sua plenitude quando efetivamente se é sujeito de direitos e de deveres. Quando, porém, os mesmos são desrespeitados desavergonhadamente, como no recente caso envolvendo Santiago, Moa e Kayser, ou deles não se goza plenamente em função de uma série de vicissitudes históricas e conjunturais, também é um dever, e não somente um direito, exigir sua reparação. Tal é o caso, por exemplo, tanto das demandas do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD) quanto de manifestações públicas como a Marcha dos Sem, realizada na última sexta, 30, aqui na mais politizada das capitais, muito embora o novo jeito de governar venha tratando aos primeiros como caso de polícia e o jornaleco da Azenha tenha se referido ao segundo, por sua vez, como caso de EPTC.

O motivo de tal tratamento dispensado pelo jornaleco da Azenha à tal marcha? Fácil.

É que para a Zero Hora cidadania não é se cobrar do Estado a dignidade que a todo homem pertence essencialmente, mas sim "
fazer um programa diferente", tal como presentear neste natal os filhos de mães e pais como aqueles que integram movimentos como o MTD e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), por exemplo, sabidamente pessoas desfavorecidas social, histórica e economicamente, para quem pensava que integrantes do MST dormem debaixo de lonas em acostamentos em nome de alguma revolução comunista a ser liderada pelo presidente venezuelano Hugo Chávez.

Ou seja, cidadania não é lutar para que cidadãos tão honrados quanto qualquer Sirotski ou Rech tenham trabalho, moradia e renda dignas, mas sim presentear os filhos desses mesmos cidadãos misteriosamente sempre aos finais de ano, quando uma série de problemas sociais e crianças sujas e ranhentas parecem surgir do além, quando não de bueiros.

O exercício pleno de nossa cidadania é, saibam os senhores, pelo menos segundo o Grupo PRBS, limparmos nossas consciências todo final de ano, preferencialmente em alguma loja do shopping center no qual o referido grupo possui participação acionária, ou em alguma loja que revenda os produtos de sua gravadora.

Talvez La Vieja tenha ofendido algumas suscetibilidades e sensibilidades ao afirmar que atitudes como dar esmolas e presentear filhos de pessoas desfavorecidas social e economicamente seja um mero exercício de limpeza de consciência burguesa ou mesmo ecos de seu brado retumbante, resquícios seus menos visíveis porém, indiscutivelmente, formadores da consciência de classe de nossa identidade guasca e de povo heróico. Talvez alguns, e este é o ponto, creiam que tais atitudes também sejam abarcadas pelo conceito de cidadania, uma vez que também seria dever social, e não só prova de bom caráter, generosidade, desprendimento e solidariedade para com o próximo menos favorecido, assistir-lhe não somente nestas natalícias horas. E talvez eles não estejam errados, La Vieja não sabe.

Ela sabe, porém, de duas coisas. A primeira delas é que tal assistência, embora discutível do ponto de vista do conceito de cidadania, pelo menos em um certo sentido está bem mais próxima da mensagem deixada pelo suposto Filho de Deus do que aquilo que empresas como o Grupo RBS vendem como espírito natalino, um consumismo desenfreado, egoísta e egocêntrico preferencialmente praticado nas melhores lojas do ramo, invariavelmente aquelas onde tais empresas possuem participação direta ou indireta. A segunda coisa que La Vieja não só sabe, como também tem certeza, é que a palavra cidadania, para o Grupo RBS, ou bem se resume ao assistencialismo ou ao voluntariado, mas jamais à participação política consciente. Essa não só é dispensável como também indesejável.

Pois de que outro modo poderia o referido grupo exercer sua "cidadania"?

Sobre parapeitos

A Rainha das Pantalhas está, definitivamente, de castelo novo, sua residência de verão.

Segundo a Zero Hora, "
Com uma vista privilegiada do pôr-do-sol do Guaíba, a governadora Yeda Crusius estreou ontem o novo gabinete no 21º andar do Centro Administrativo do Estado. - A beleza chega a atrapalhar - brincou Yeda, acrescentando que a mudança marca o início de uma nova fase do governo
" (O grifo é meu).

Ai de nós, pobres súditos, se a beleza chegar a atrapalhar. Se sem vista e sem beleza para ser contemplada dos régios parapeitos palacianos já estava complicado, imaginemos agora, que a beleza do "mais belo pôr-do-sol do mundo", como afirmam os farrapos mais modestos, começará a atrapalhar os ares de nossa humilde rainha, que ontem também concedeu à plebe a honra de sua companhia:
"No primeiro dia de trabalho, a governadora surpreendeu ao se misturar com milhares de servidores que trabalham nas 12 secretarias estaduais, Procuradoria-Geral do Estado e dezenas de órgãos que funcionam no local".

Agora vai.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Sobre o medo e a coragem

Não é o só o fato do novo jeito de tergiversar não ter a menor idéia de quais áreas pretende repassar às OSCIPs que surpreende na entrevista concedida por Fernando Schüler ao jornaleco da Azenha, da qual La Vieja reproduziu um trecho logo abaixo.

Examinemos mais detalhadamente as afirmações abaixo, do secretário da Justiça e do Desenvolvimento Social do novo jeito de avançar:

"Somos uma sociedade que desconfia demais. E isso tem sido um problema para a construção de consensos e para o avanço do Estado. Em parte, chegamos na crise a que chegamos porque tivemos medo de avançar e de nos modernizar" (Os grifos são meus).

La Vieja não crê que o fato de supostamente sermos uma sociedade que desconfia demais seja um problema para a construção de consensos. Tal desconfiança, muito pelo contrário, tem sido até uma virtude. Não fosse ela teríamos deglutido tanto o Pacto Pelo Rio Grande, articulado, entre outros, pelo brilho intelectual de um Cézar Busatto (PPS-RS) e de um José Barrionuevo (ex-PRBS), quanto a Agenda Estratégica do RS 2006/2020: O Rio Grande que Queremos,
capitaneada pela Farsul, pela FCDLs, pela Federasul, pela Fecomércio e pela Fiergs, os clubinhos das indústrias, do comércio e da agricultura do estado. Não fosse certa dose de prudência o Rio Grande do Sul que realmente queremos não seria senão o Rio Grande do Sul que querem José Barrionuevo ou, na melhor das hipóteses, Farsul e Fiergs: um imenso latifúndio com vista para um distrito industrial.

La Vieja
também acredita que esse rapaz ou bem tem sérios problemas de memória ou bem absolutamente não sabe do que está falando, pois chamar de "medo de avançar e de nos modernizar" todas as políticas públicas postas em prática tanto nos governos de Antônio Britto, the Salesman (1995-1998), quanto nos governos de Germano Rigotto, o Meigo (2003-2006), e Yeda Crusius, a Rainha das Pantalhas (2007-?), dos quais seu PSDB sempre fez parte, é no mínimo uma contradição ululante, uma vez que todas elas sempre nos foram vendidas como o supra-sumo da modernização dos processos de administração e gestão pública, ou seja, do avanço e da modernização da máquina estatal. Políticas públicas como as concessões de anistias e isenções fiscais, a liquidação e sucateamento de patrimônio público, os programas de demissão voluntária aplicados ao funcionalismo público, a renegociação da dívida pública com a União, o incentivo à guerra fiscal entre estados e a contratação de consultorias privadas sempre foram marcas registradas de todos os novos jeitos de governar dos quais os tucanos gaudérios fizeram e fazem parte.

Nesse sentido, não foi exatamente o
medo de avançar e de nos modernizar que fez com que chegássemos à crise a que chegamos, pois coragem para avançar e nos modernizar não faltou a todos os novos jeitos de governar farrapos, que sempre contaram em suas fileiras com a intrepidez tucana nativa. Muito pelo contrário, aliás, não termos tido medo de avançar e de nos modernizar foi um dos principais motivos pelos quais chegamos à crise a que chegamos. Desta responsabilidade histórica os arautos da modernidade guasca jamais poderão se furtar, não importa o quanto Fernando Schüler acredite ter entendido Paul Kennedy.


Novo jeito de tergiversar

"ZH - Que áreas o governo pensa em repassar às Oscips?

Schüler -
Certas coisas que se discute no Rio Grande do Sul não se discute em nenhum lugar do mundo. Somos uma sociedade que desconfia demais. E isso tem sido um problema para a construção de consensos e para o avanço do Estado. Em parte, chegamos na crise a que chegamos porque tivemos medo de avançar e de nos modernizar. O governo, de fato, não tem nenhuma definição específica de termos de parceria" (O grifo é meu).

Fernando Schüler, secretário da Justiça e do Desenvolvimento Social do novo jeito de tergiversar, em entrevista ao jornaleco da Azenha, também conhecido como Zero Hora, de ontem, 02.


As OSCIPs, reguladas pela Lei 9.790, de 23/03/99, também conhecida como Lei do Terceiro Setor, são espécies de ONGs que, a partir de uma certificação obtida junto ao poder público, no caso em tela junto ao novo jeito de tergiversar, habilitam-se a firmar acordos e elaborar projetos supostamente de interesse público e a receber recursos governamentais a fim de viabilizá-los. As OSCIPs, que não podem lucrar com a administração de serviços ou órgãos públicos para os quais se habilitem, no entanto podem remunerar seus gerentes e executivos de acordo com os preços praticados no mercado. O que levaria executivos bem-sucedidos a abandonarem seus negócios e projetos pessoais a fim de administrarem quantias públicas nada modestas em troca de salários praticados no mercado privado permanece, entrementes, uma incógnita. Talvez os executivos responsáveis pelas relações entre DETRAN, Fundae, Fatec e Pensant, ou mesmo lideranças do partido da ética, o PP, antiga ARENA, estejam moralmente mais autorizados do que La Vieja para responder a esta questão.

O que convém não perder de vista, no final das contas, é que "
Os mecanismos de controle e auditagem das OSCIPS não estão previstos no projeto que tramita na Assembléia. São objeto do projeto de lei, mais de trinta entidades públicas do Estado do Rio Grande do Sul, que ficam passíveis de serem administradas por interesses particulares sem qualquer compromisso público e social".

(A montagem é de Eugênio Neves)

domingo, 2 de dezembro de 2007

Timão

Se bem que, pensando bem, tem razão Joseph Ratzinger em sua última encíclica:

"Ao final, os maus, no banquete eterno, não terão lugar indistintamente junto com as vítimas, como se houvesse ocorrido nada".

No cartaz ao lado, homenagem do Clube dos 13 ao suposto quarto título nacional do Corinthians, pretensamente conquistado no ano de 2005, clube que somente se ilude ao pensar ter sido campeão brasileiro nesse mesmo ano e, tal como o Sport Club Internacional e o Grêmio Foot-ball Porto-Alegrense, campeão mundial interclubes.

Uma singela homenagem de La Vieja, que tem um prazer especial em cultivar determinadas úlceras, ao Timão.

Spe salvi factis fumus

Joseph Ratzinger, para alguns o Papa Bento XVI, supremo líder espiritual da Igreja Católica Apostólica Romama e também chefe de Estado do Vaticano, representante do deus católico entre os homens de boa vontade, mais uma vez, como de costume, extrapolou a paciência dos homens de pouca fé.

Segundo informa a BBC Brasil,
"O papa Bento 16 fez uma dura crítica ao ateísmo em um documento divulgado nesta sexta-feira, dizendo que a doutrina, que nega a existência de Deus, foi responsável por algumas das piores formas de crueldade e injustiça na história moderna". Conforme a Zero Hora, por sua vez
, "O Pontífice também questionou o cristianismo moderno, que, segundo ele, ao se concentrar na salvação individual, 'ignora a mensagem de Jesus de que a verdadeira esperança cristã envolve a salvação de todos'".

O referido documento se trata da segunda encíclica apresentada por Ratzinger, intitulada Spe salvi. Tal afronta à inteligência dos homens de pouca fé veio a lume nessa última sexta, 30.

Embora seja um prato cheio, La Vieja vai deixar de lado a crítica papal àquilo que a igreja católica apostólica romana entende por ateísmo, bem como a relação entre tal "doutrina" e "algumas das piores formas de crueldade e injustiça na história moderna". Ela irá se concentrar somente na segunda parte do delírio ratzingeriano.

Muito provavelmente Joseph Ratzinger tem em mente, quando fala em "cristianismo moderno", todas as formas de cristianismo que não reconhecem sua autoridade. Tais degenerações, oriundas de interpretações equivocadas da palavra de Deus, pois só a igreja católica detém o privilégio de interpretá-las adequadamente, o que deve ser algo na água do Vaticano, concentram-se na salvação individual, ignorando "
a mensagem de Jesus de que a verdadeira esperança cristã envolve a salvação de todos", ainda conforme a Zero Hora.

É no mínimo engraçado ouvir um representante da igreja católica se referir de modo pejorativo ao conceito de salvação individual, algo que lhe foi, e ainda o é, tão caro. Não era bem a "salvação de todos" que preocupava Rodrigo Bórgia, para alguns o papa Alexandre VI, quando usou sua fortuna
"para comprar a maior parte dos votos dos cardeais quando se realizou o conclave para definir a
sucessão do papa Inocêncio VIII". Embora seu papado tenha começado tranqüilo,"não tardou para que se manifestasse sua ganância em sacrificar todos os interesses em favor da família. Fez seu filho de dezesseis anos, César Bórgia, arcebispo de Valência, e seu sobrinho João, cardeal". Seu pontificado, "paradigma de corrupção papal", demonstra o quanto "Alexandre VI foi, sem dúvida, um papa corrupto, pouco dado às virtudes cristãs". Trata-se, como se vê, de um belo exemplo de virtude cristã esse o de Alexandre VI, um papa preocupadíssimo com a salvação de todos, pelo menos de todos os de sua família. Seu papado, bem como sua conduta individual, foram exemplos vivos de como todo bom católico condena a busca da salvação individual.

Também não é menos risível que uma instituição que praticou a venda de indulgências durante o final da Idade Média, a fim de financiar a construção da <